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Crônicas de Humor
LUDWIG E A MUSA
Ludwig van Beethoven
desde muito cedo interessou-se por música. Ainda criança
teve aulas de composição e piano com Haydn e depois com
o compositor oficial da corte de Viena: Antônio Salieri.
Aprendendo aqui e ali, Ludwig leva a vida no "piano, piano se va
compondo". Com vinte anos, o jovem gênio foi passar férias
numa modesta casa de sua tia, no interior da Alemanha. Um dia veio-lhe
a idéia de fazer algo novo e marcante. Sentou-se ao piano, abriu
os canais cósmicos e sua imaginação penetrou no mundo
maravilhoso das notas e pautas.
Beethoven passava os dias absorto em suas composições e
não percebera a presença de uma jovem camareira que passava
sempre perto dele emitindo suspiros convidativos. Numa manhã, ela
lustrava o piano quando o compositor levantou os olhos do teclado e fixou-os
na moça. Encabulada, deixou cair o pano de limpeza e abaixou-se
para apanhá-lo; porém, ao inclinar-se o decote mostrou um
trecho do volume escondido. Ludwig ficou interessadíssimo naqueles
dois novos instrumentos, redondamente perfeitos. Instrumentos que ainda
não havia tocado, nem com as mãos nem com a boca.
Criativo, logo imaginou uma composição. Não queria
registrá-la em partituras de papel, mas em lençóis
de cetim a duas vozes em uníssono. Tinha que ser "prestíssimo",
pois a inspiração já começava a criar volume.
Ludwig, com muito charme e técnica no contraponto, convidou a jovem
para um dueto no seu quarteto que ficava no porão. Ofegante de
emoção, ela aceitou prontamente.
Lá foram: gênio e musa, compor obras sinfônicas ou
melhor: afônicas. Em questão de minutos surgiu a 1ª
de Beethoven, na base da intuição e sufoco; todavia já
demonstrava um grande talento no domínio dos instrumentos de percussão.
Gostou tanto que, em seguida, corrigindo algumas falhas, partiu para a
2ª. Essa tão rápida quanto a anterior, um pouco parecida,
talvez, mas afinal ele estava experimentando seus limites.
A 3ª foi muito importante, pois achou ser seu limite, por isso chamou-a
de a "Heróica". Claro, que depois disso o inesgotável
gênio deu um tempo... e, com as forças redobradas emplaca
a 4ª e a 5ª. Ah, a 5ª, muitos experts a apreciam, é
fruto de completo domínio, talento, energia e controle de execução.
"Cria fama e deita-te na cama". Lógico, como todo gênio,
Ludwig não fugiu à regra e continuou deitado em companhia
de sua adorável musa. Já era meio tarde, quando ao som de
passarinhos cantando nos galhos das árvores, Beethoven arrematou
a 6ª e deu-lhe o nome de Pastoral. Mas, o vigoroso e criativo Ludwig
tem forças ainda para a 7ª e a 8ª. Claro que em relação
às outras, essas são mais violentas e pesadas, porém
têm muita emoção e... suor.
Preparava-se para a obra final, que abranja toda sua técnica, sentimento
e talento criativo. Olha para o piano - um móvel estático,
duro e frio. Olha para sua musa - linda, macia e quente. Sente a inspiração
elevar-se e tomar conta de sua mente, alma e corpo. O momento sublime
se aproxima, mas de repente o dueto vira terceto. A mãe da moça
entra em cena e pega os dois no ato. A musa, envergonhada, atira-se ao
canto. Ludwig passa do "allegro com fuoco" para o "adágio
sorpreso". A mãe da moça vendo o rapaz sem partitura
e tentando uma "fuga em ré", perde a compostura e dá-lhe
um tapão no ouvido.
Tudo termina. Mas a situação foi tão marcante para
Ludwig que somente quatorze anos depois ele terminou a sua 9ª sinfonia.
Nessa altura ele já estava totalmente surdo.
Fernando
A Moretti
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