O LIVRO DO CRIADOR DO SPIRIT

Fernando A. Moretti

Quem pega o livro de Will Eisner:
"Quadrinhos e Arte Seqüencial" logo
pensa que ali está o melhor tratado
de HQ produzido nos últimos 60 anos.
É verdade. O cara entende realmente
do assunto! O prefácio é dele mesmo
e, ao justificar seu trabalho, já dá uma
breve aula de quadrinhos - lembrando
dos bons tempos de Escola de Artes
Visuais de Nova York.

Embora a primeira edição do livro
tenha saído em 1989, Eisner chama
atenção para um problema ainda
atual: "Por motivos que têm muito a
ver com a temática, a Arte
Seqüencial tem sido geralmente
ignorada como forma digna de
discussão acadêmica. Embora cada
um de seus elementos mais
importantes, tais como o design, o
cartum, e a criação escrita, tenham
merecido consideração acadêmica
isoladamente, esta combinação
única tem recebido um espaço bem
pequeno (se é que tem recebido
algum) no currículo literário e artístico.


Creio que tanto o profissional como
o
crítico são responsáveis por isso".

Will Eisner está agora com 81 anos,
6
0 dos quais dedicados aos
quadrinhos. Nasceu em Nova York,
em 3 de março de 1917. Estudou no
Art Students League, trabalhou como
redator e desenhista de moda. Em
1
936 estreou com tirasdiárias nos
jornais dominicais. A partir daí seus
personagens começaram a fazer
sucesso: Sheena, K-5, Yarko, Black
Condor (Blackhawk ou Gavião dos
Mares), Uncle Sam - alguns dos
quais assinava sob o pseudônimo de
Will Rensie. No entanto, seu
personagem mais fa
moso surgiu
em 1940. Eisner nos conta como foi:
"Eu queria um herói que vivesse
além da Lei, mas não tinha e stômago para os super-heróis com
superpoderes. Então imaginei Denny Colt, um detetive considerado morto e enterrado, mas na realidade mora no cemitério e sai de lá to
dos os dias para combater o crime...".

O Spirit rapidamente conquistou os fãs de quadrinhos e Eisner passou a usar as páginas dos jornais para dizer o que pensava sobre o mundo. Era uma forma de colocar sua opinião para fora.

De 1940 a 1952, ele produziu quase 700 histórias do Spirit. No Brasil, o personagem começou a ser publicado em 1942 no Gibi Tri-semanal. Durante a guerra, Eisner serviu no "front", onde produziu revistinhas informativas (em forma de quadrinhos) para os soldados. Depois da guerra mergulhou inteiramente na produção desse produto para empresas, ganhou bastante dinheiro e deixou de lado seus personagens, entre eles "O Spirit" cujos originas guardou na garagem de sua casa.

Dizem que quanto mais envelhece, mais fica parecido com o inspetor Dolan, inclusive chegou até fumar cachimbo! Certa vez no Congresso de Lucca/74 (Itália) perguntaram a ele como havia conseguido desenhar Dolan à sua semelhança (agora velho), anos antes. E ele respondeu: "Não é nada disso! Quem eu criei a minha semelhança foi o Spirit..."

O talento de Will Eisner é reconhecido no mundo todo. Seu desenho, após mais de meio século de arte, ainda é de vanguarda. Ele estava tão à frente de seu tempo que muito antes do cinema já usava a dinâmica de enquadramento, travellings, close ups, recursos de ângulo e luz. Mas não ficava só no cinema. Álvaro de Moya (Shazam! Pg.68) diz: "Seus textos eram visivelmente influenciados por Gogol e Tchecov no seu balanço típico de conto literário, irônico, sutil, humorístico, num traço que receberia os mesmos adjetivos. O equilíbrio perfeito, o paralelismo e simultaneidade de texto e uso da imagem em desenvolvimento idêntico, fizeram desta experiência umas das mais bem logradas em arte".

Eisner mostrou-se um observador profundo, criativo e inovador: suas figuras seguem a proporção humana, mas têm uma intencional distorção caricata - que é a própria distorção do caráter humano frente à situações adversas. A abertura de cada história do Spirit era diferente; nunca usou o mesmo tipo de letra no título duas vezes.

A Editora Martins Fontes lançou a 2ª edição do "Quadrinhos e Arte Seqüencial". Quem perdeu ainda tem chance. Afinal, entre as tantas alegrias que Will Eisner nos proporcionou, uma delas foi a de ver surgir novas gerações de quadrinhistas... e de bons quadrinhistas.

© Reprodução autorizada para o Humor Vitreo

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