Honoré Daumier - o precursor da charge

Fernando Moretti

Honoré Daumier nasceu na França (Marselha) em 1808. Desde pequeno não se interessava
pelos estudos, só queria desenhar. Quando a família mudou-se para Paris ele passava o tempo desenhando pessoas e cenas dos bairros pobres da cidade, tema que o atraía bastante. Foi aluno de Alexandre Lenoir, um velho artista que apreciava Rubens e era colecionador de esculturas. Depois disso, Daumier estudou na Escola de Belas Artes e na Academia Boudin. Aos 13 anos seu pai sofreu um derrame e ele teve que procurar um emprego. Começou como ofice-boy de um agente de polícia. Depois trabalhou como balconista na badalada livraria Palais-Royal, onde começou a captar as características da "Comédia Humana" para suas futuras caricaturas.

Com 19 anos, Daumier decidiu seguir a carreira artística. Mas, incapaz de ganhar a vida como pintor ou escultor, acabou aceitando em 1830 um emprego de desenhista de litogravuras no jornal "La Caricature". Seu chefe era Charles Philipon, fervoroso jornalista de oposição associado a liberais políticos, cujo jornal defendia os ideais republicanos contra o rei Luís Felipe I. Daumier estava no ambiente certo. Avesso a monarquia e simpático às ideologias liberais, suas charges foram tomando cunho político. Em 15 de dezembro de 1831, ele deu seu primeiro passo para a fama com uma charge sobre impostos: "Gargantua" - que mostrava o rei Luís Philipe gordo e engolindo sacos de ouro extorquidos do povo. O rei tolerava as piadas que a Imprensa fazia às suas custas. Mas essa bastou e, em vez de processar o jornal, confiscou-o. Não era hábito do rei punir um ofensor. Honoré Daumier teve

tal honra! Isso custou-lhe em 1832 seis meses de prisão, dos quais passou dois na prisão estadual Sainte-Pélagie e quatro na Casa de Saúde Dr. Pinel - hospital de doentes mentais, pois o rei queria mostrar que só um insano podia satirizá-lo. Solto em fevereiro de 1833, Daumier voltou a chargear (atacar) o regime através de seus desenhos ferinos, porém nunca mais foi indiciado.

Em 1835 a sátira política foi proibida, o "La Caricature" foi fechado e Daumier teve de abandonar a charge política, voltando-se à charge social publicando no jornal "Le Charivari" (A Balbúrdia) sob o pseudônimo de Rougelin. O trabalho de Daumier foi influenciado por escritores contemporâneos como: Balzac, Zola, Dickens e Baudelaire. Balzac, referindo-se ao acabamento escultural de suas litogravuras, dizia que ele tinha um toque de Michelangelo. Baudelaire aconselhou-o a abandonar os temas mitológicos e concentrar-se mais na realidade da vida parisiense. Paris oferecia-lhe uma fartura de cenas, incluindo banqueiros, mulheres fúteis, advogados, colecionadores de arte, lojistas e vagabundos. Isso durou pouco, pois durante a Revolução Republicana de 1848 ele abraçou a charge política novamente.


As mais de 4 mil litogravuras de Honoré Daumier abordam a decência, as fraquezas dos franceses, as instituições civis, culturais e religiosas. Podemos dividir sua vida profissional em duas partes: de 1830 a 1847 ele trabalhou como litógrafo, chargista e escultor; no começo de 1848 até 1871, ele foi um pintor impressionista. Sua sensibilidade às dificuldades das pessoas não privilegiadas está no quadro "Vagão de 3ª Classe" que mostra, com grande compaixão, um grupo de pessoas pobres viajando de trem. Seus amigos eram pessoas românticas, pobres e esquerdistas entusiastas, como: Corot, Rousseau, Millet e Victor Hugo - que montou a "Exposição Daumier", com suas telas, desenhos e esculturas. Apesar disso, Daumier não era membro de nenhum círculo literário ou artístico. Não gostava de participar de salões ou cafés. No fim da vida morava numa casa comprada por seu amigo Corot, em Valmondois. Em 1875, a cegueira calou sua pena ferina e em 11 de fevereiro de 1879, uma paralisia cerebral levou-o para sempre.

© Reprodução autorizada para o Humor Vítreo

Veja outras obras de Honoré Daumiers no The Fine Arts Museum - www.thinker.org/imagebase/index.html

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