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O Instituto Cseh
durante a Guerra

Reproduzido da revista"Esperanto Internacia"
Julho-Agosto 1945, pp. 57-59

 

A partir de cópia gentilmente cedida por Jean Amouroux (FR) ao KCE-Campinas [imagens adicionadas na página, nenhuma figura na edição original]

 

Cseh

Cartão postal com foto do
padre Cseh
(pron.: tchê)
nos anos 30
[col. J. Piton]

Nota: O padre húngaro Andreo Cseh (1895-1979) criou seu famoso método direto de ensino de Esperanto, sem usar livro didático nem qualquer língua nacional, por ser concebido para classes com alunos (ou professor) de diferentes línguas. O Instituto Cseh (hoje: Internacia Esperanto-Instituto) preparava e prepara professores segundo esse método.

 

sidejo de Internacia Cseh-Instituto, Hago

Acaba de recomeçar o serviço postal com o exterior. Vou rapidamente usar esta primeira chance para saudar de coração nossos coidealistas e colaboradores de todos os países e lhes das algumas informações sobre o destino do nosso Instituto.

Ao explodir a guerra, em setembro de 1939, o governo holandês requisitou a casa do nosso Instituto, na rua Riouw, 172, para alocar nela algum escritório do estado. A família Isbrücker e o Instituto alugaram em conjunto uma grande casa perto do litoral, e continuamos nossos trabalhos, ainda que em menor escala, até a invasão alemã em maio de 1940.

Conhecendo a perseguição ao Esperanto na Alemanha, com a ocupação da Holanda nós queríamos salvar o Instituto e seu patrimônio pela liquidação formal, mas não foi possível, por ser o Instituto legalmente tanto uma fundação quanto uma pessoa jurídica, e por isso indissolúvel pelas leis holandesas. Por outro lado, as autoridades alemãs enfatizavam repetidas vezes que eles vinham à Holanda apenas como amigos e protetores, para defender a neutralidade da Holanda, e que eles não pretendiam fazer qualquer mudança na vida do povo holandês.

Postal de 1937 - escritório do
Instituto Internacional Cseh de Esperanto
na Riouwstraat 172, Haia, Holanda.
Essa casa segue sendo sua sede em 2005.
[col. J. Piton]

De fato, no começo não importunaram nosso movimento; até permitia-se o uso do Esperanto na correspondência com os países neutros, e as agencias postais na Alemanha continuavam a aceitar assinaturas para a nossa revista La Praktiko. Assim, após uma pausa de alguns meses, no outono de 1940 retomamos a publicação da La Praktiko, e tínhamos no escritório do Instituto toda semana uma reunião bem freqüentada para o estudo da historia do movimento esperantista.

Mas em 20 de março de 1941 apareceram de surpresa no escritório do Instituto dois policiais, e, por ordem das autoridades alemãs, fecharam o Instituto e confiscaram todo seu patrimônio. Em dois grandes caminhões levaram os móveis e as máquinas de escritório, o arquivo inteiro e os estoques das nossas edições. Os policiais foram de nosso escritório até a gráfica, onde mal havia começado a impressão de dois números (março e abril de 1941) da La Praktiko. Eles suspenderam os trabalhos e inutilizaram as placas de impressão.

Cartão postal de 1941 com o qual Cseh informava em holandês e inglês
(em Esperanto seria imprudência) que o Instituto havia sido liqüidado
[col. J. Piton]

Começamos logo nossos esforços para salvar o patrimônio do Instituto, pelo menos o suficiente para que os credores do Instituto pudessem receber suas exigências. O alto funcionário alemão competente, relator ministerial Dr. Schwier, liquidante dos movimentos culturais, mostrou-se um inimigo ferrenho do Esperanto. Nenhum raciocínio lógico e objetivo era possível com ele. Ele disse pretensiosamente que já aniquilara os movimentos esperantistas na Alemanha e na Polônia, e nos ameaçou com prisão e campo de concentração se defendêssemos o Esperanto como meio de paz e amizade internacional, pois "o pacifismo e o humanismo são os maiores crimes contra a vida dos povos". Ele estava disposto a falar conosco apenas de negócios. Pedimos a permissão dele para que vendêssemos os livros em países neutros, para assim levantar dinheiro para os nossos credores. Ele recusou e declarou que os livros seriam destruídos para produzir mais papel.

Ante nossa observação, que dentre os livros confiscados encontravam-se também obras de Goethe, Schiller e outros escritores alemães, ele respondeu que esses também seriam destruídos, porque o Esperanto deveria desaparecer da face da Terra. As obras desses autores deveriam ser lidas no original alemão ou em traduções para alguma língua nacional, mas não em Esperanto, porque o Esperanto não é uma língua (!). Em seguida ele nos proibiu terminantemente de continuar qualquer trabalho em favor do Esperanto, já que "o movimento pelo Esperanto nada mais é que uma tentativa ardilosa de judeus e maçons para destruir as nações e dominar o mundo".

À minha justificativa, que a proibição do trabalho e impedimento de fonte de renda significava para mim, pessoalmente, que estaria colocado na rua, tanto mais que também as minhas economias pessoais, minha única segurança no caso de uma eventual invalidez, foram em grande parte emprestadas ao Instituto para a edição de livros, ele respondeu cinicamente:

-Sim, mas você não estará sozinho. Será apenas um das centenas que já foram colocados na rua.

Eis o verdadeiro aspecto do exemplar "estado social"!

Entre os livros confiscados estavam também as edições da empresa Hirt em Leipzig. Adquiri esses livros em 1938, portanto já no regime Hitler, com a permissão do governo alemão, e pagamos o preço de mais de 13 mil florins através do Banco Nacional Alemão. Dissemos isto ao Dr. Schwier e perguntamos por que então dois anos atras permitiram a venda desses livros ao invés de destrui-los? Sem hesitar, e sem qualquer sinal de constrangimento, ele respondeu:

- Porque nós então precisávamos de moeda holandesa, mas agora nos já temos toda ela.

Essa é a mentalidade típica de ladrões. "A justiça é o fundamento dos estados", diz o velho provérbio. Ao Terceiro Reich faltava completamente esse fundamento. Por isso era inevitável o seu terrível desmantelamento.

No outono de 1941 os livros e outras edições do Instituto, com todo o arquivo e papés de escritório, foram transportados para uma fábrica de papel... Milhares de clichês, distintivos etc. tiveram destino semelhante. No entanto, no último instante, quando já haviam começado a despedaçar os livros, com a ajuda de policiais de boa-vontade, conseguimos salvar da destruição uma pequena quantidade de livros e outros objetos em esperanto. Uma outra parcela não muito grande de livros salvou-se por haver ficado no encadernador, despercebida dos vândalos alemães.

Os moveis e equipamentos de escritório foram vendidos em leilão público. Usamos a oportunidade e recompramos (!) por 750 florins alguns objetos que ainda não haviam sido vendidos. Uma parte dos objetos que salvamos assim (máquinas de escrever e uma endereçadora) alugamos para escritórios, e assim o Instituto (adormecido mas não morto!) recebeu mensalmente uma certa soma, embora irrisória.

Entre os objetos recomprados estavam também nosso excelente mimeógrafo. Nós o demos a um comerciante de maquinas de escritório com o pedido que ele nos ajudasse, alugando o equipamento a um escritório. Ele prometeu tratar de nos ajudar. Mas mostrou-se depois que simplesmente vendeu o mimeógrafo a um conhecido e esqueceu o dinheiro em seu bolso.... Ele deu a desculpa que passava fome e precisava de dinheiro. Ao perguntar-lhe por que ele não vendera antes seu piano, ele me respondeu com inocência pueril:

- Porque minha mulher gosta muito de tocar piano.

Agora a polícia está obrigando-o a pagar, mas sem muito sucesso, porque ele não tem dinheiro. Mas mesmo que ele pagasse, não adiantaria muito, porque hoje na Holanda não é mais possível comprar esses esquipamentos. E sua falta atrapalha muito a nós, no recomeço de nossas atividades.

Alguns objetos salvos nós demos para amigos guardar. Mas quase em toda parte nos perseguiram os demônios da destruição. Na casa de um amigo a água e o bolor causaram prejuízo, na casa de outro os lápis com reclame de Esperanto, que salváramos, foram destruídos quando sua casa incendiou-se no bombardeio fatal de Haia em 3 de março de 1945. E nosso ótimo, caríssimo aparelho de projeção, também salvo das garras alemãs, arrombadores levaram, quando, na severa fome no ultimo inverno, grassou em Haia o furto e o roubo em geral.

Cartão postal dos anos 30 da Esperanto-Domo (Casa do Esperanto),
cedida pela cidade de Arnhem, Holanda ao Instituto Cseh.
[col. J. Piton]

A Esperanto-Domo (Casa do Esperanto) em Arnhem depois da invasão alemã tivemos que passar ao exercito para servir de sanatório. A prefeitura de Arnhem transportou então o patrimônio (moveis de hotelaria e roupa de cama para 50 pessoas e instalações de refeitório para 100 pessoas), junto com muitos livros que guardávamos na Esperanto-Domo, para um deposito em algum sótão. Esperávamos que esses importantes bens se salvassem. Mas em setembro de 1944, quando da catástrofe fatal de Arnhem, parece que tudo foi destruído. Não temos certeza, porque ainda não pudemos viajar a Arnhem, e não venho resposta às nossas cartas.

Cartão postal com aspecto de um dos quartos de hóspede (1936)
[col. J. Piton]

 

Envelope postado na Esperanto-Domo.
Nos verões de 1937 a 1939 lá funcionou uma agência do correio holandês,
dado o fluxo de turistas
[col. J. Piton]

Se também os bens em Arnhem se perderam, os prejuízos do nosso Instituto chegam a mais de 86 mil florins.

* * *

No inicio de 1943 os alemães começaram a construir seu invencível Muro Atlântico. Eles então evacuaram a região litorânea e nos obrigaram a mudar para um novo endereço: rua Riouw, 169, em Haia, onde moramos até hoje.

Nos últimos tempos da guerra tivemos que cada vez mais sofrer física e moralmente pela raiva crescente dos desesperados alemães. Tivemos que preparar continuamente esconderijos para nós mesmos e para os nossos bens. Uma praga sobre nós eram especialmente os mísseis, pois Haia estava cheia de disparadores. Uma grande parte desses dispositivos infernais caiam e explodiam alguns segundos depois do disparo, causando enorme destruição. Muitas dessas bombas que falhavam caíram nas proximidades de nossa casa, uma até na própria rua Riouw, e só a diferença de meio segundo nos salvou do desastre. Nesta única ocasião 600 casas em nossa rua e nas ruas vizinhas tornaram-se inabitáveis. Com muita sorte nós perdemos apenas nossas janelas.

O período mais difícil para nós foi o ultimo inverno, quando os alemães vingativos quiseram nos dobrar pela fome. Sem alimentos suficientes, sem luz e aquecimento, sem telefone e bondes, sem rádio e bicicletas, na Holanda tão necessários! - tivemos que viver como Robinson Crusoe mais da metade do ano. Devido à pesada espada da fome começou uma selvajaria generalizada. Muitas centenas morreram de fome, inclusive esperantistas.

Por fim, no momento mais crítico, surgiram os aviões e navios amigos da Cruz Vermelha da Suécia com os alimentos tão necessitados, e logo seguiu-se nossa tão esperada libertação.

Infelizmente muitos dos nossos amigos e colaboradores não alcançaram a libertação. Muitos, dentre eles nosso conhecido propagandista Sr. Glück, foram engolidos pela carniceria alemã. O Sr. Pragano salvou-se, fugindo nos últimos instantes das mãos da policia.

A família Isbrücker, e eu próprio, felizmente, ficamos com saúde suficiente e fortes em espirito. Perdemos cinco belos anos de nossas vidas, mas não perdemos nosso otimismo e coragem. Começamos a reconstruir tudo o que se destruiu, e decidimos fazer mais e melhor do que antes desta guerra cruel e abominável, mas também rica em ensinamentos.

Alguns professores treinados para o método Cseh de ensino do Esperanto:
o húngaro Júlio Baghy, o indiano L. Sinha, a estoniana Elinjo Pähn
em postais dos anos 30
[col. J. Piton]

A falta de recursos dificulta muito nosso trabalho de reconstrução. Já iniciamos junto ao governo as medidas para receber alguma indenização pelas perdas, mas as instancias competentes poderão tratar desses pedidos provavelmente apenas daqui a meses, dado o estado de destruição do aparelho do estado. Mesmo agora, seis semanas após nossa libertação, ainda não temos eletricidade nem gás, telefone nem bondes, nem trens ou outros meios de transporte. Tão "fundamental" e "totalmente" nos saquearam nossos "protetores" alemães.

Também salas para o escritório nós procuramos sem sucesso, devido à enorme falta de casas. A metade das casas em Haia foi destruída por bombardeios e mísseis; ruas inteiras os próprios alemães destruíram para construir fortalezas e muitas centenas de casas o povo sofrido destruiu no inverno, para retirar lenha para os aquecedores. Temos que provisoriamente exercer ainda as belas virtudes da paciência e da esperança.

Mas apesar de tudo agora, recomeçando a vida humana, tentaremos trazer de volta a prosperidade perdida e que ela até cresça, para o nosso país e para o nosso movimento.

Haia, 16 de junho de 1945.

Andreo Cseh

Cartão postal de 1930 com mensagem autografada do padre Andreo Cseh.
[col. J. Piton]



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