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Inglês - o esperanto do mundo?

Domeniko Vieira
Goiânia-GO


O domínio de um segundo idioma é algo que pode garantir o sucesso pessoal num mundo
cada vez mais globalizado. Assim sendo, apreendê-lo é uma necessidade básica para profissionais
de várias áreas. Para os universitários e para aqueles que ainda almejam ingressar no cada vez mais
competitivo mercado de trabalho torna-se algo essencial. Até aqui nada de novo, pois difícil encontrar
alguém que não concorde com tais afirmações. Mas que idioma seria esse? Será que há um idioma
capaz de garantir toda essa segurança? Capaz de assegurar vaga em mercado de trabalho?
Fornecer ao seu falante uma igualdade, atenção e respeito no mundo da linguagem? E ainda
promover a abertura de relacionamentos em âmbitos internacionais?

É fácil encontrar pessoas que acreditam, principalmente nos paises emergentes, que falar em
inglês é garantia de compreensão em qualquer lugar do mundo. Que dominar este idioma
proporciona acesso a universidades do mundo inteiro e assegura certo respeito no ato de falar.
Outros acreditam que uma vida no mundo moderno, todo repleto de computadores ligados à rede
mundial; com incontáveis congressos sobre as mais diversas áreas do saber; necessidade de
viagens internacionais a negócios; sem que se saiba o bendito idioma é algo impossível. Já ouvi até
uma pessoa dizer que o inglês tornou-se o esperanto do mundo.

Penso haver bom senso por traz de algumas dessas afirmações. É bom ser capaz de falar em
um segundo idioma tão conhecido e divulgado como o inglês; é bem verdade que facilita muito a
nossa vida com relação: ao uso de novas tecnologias, eletroeletrônico, instalação e uso de
softwares etc. Saber se comunicar nele garante sim certo “status”, principalmente em nosso
emergente país, o Brasil. Mas daí a dizer que é o esperanto do mundo?

Há muitas coisas que o inglês não é capaz de fazer. Existem muitas imagens positivas criadas
pela mídia, em favor do lucro de empresas especializadas em vender a ilusão de que basta dominar o
inglês para obter uma igualdade nos discursos perante as diversas comunidades internacionais.
Estes estereótipos precisam ser questionados urgentemente. Creio que a primeira barreira a ser
quebrada é a da pré-noção de que o inglês é o idioma mais falado no mundo. Isso simplesmente não
é verdade. O mandarin, falado na China, ocupa o primeiro lugar. O inglês é o terceiro da lista, logo
atrás do hindi. O argumento contrário é de que essas duas línguas não podem ser citadas quando se
aborda essa temática, devido à supremacia populacional de Índia e China. Contudo isso não serve
para dar veracidade à afirmação de que o inglês é o mais falado no mundo.

Outro sonho é de que com este idioma uma igualdade dos discursos em nível internacional
pode ser obtida. Para se falar e escrever bem em qualquer idioma materno leva-se muito tempo, em
um segundo idioma então nem se fala! E a igualdade no ato da fala está diretamente ligada ao
domínio do idioma. Para isso basta observar a crítica tecida por aqueles que cultuam a língua padrão
aos que cometem deslizes de linguagem, chamando-os de incultos, assassinos da língua, caipiras
etc. Como obter essa igualdade sem compreender as metáforas, as piadas, as gírias recém-criadas?

Sendo o inglês escolhido como esse segundo idioma para um relacionamento igualitário
internacional, os anglófonos não obteriam vantagens nessas práticas discursivas? Variam muito os
estereótipos exibidos na mídia: desde empresários sendo mal sucedidos em negócios internacionais
por usarem mal os termos da língua inglesa até crianças que não conseguem se comunicar com
extraterrestres em propagandas de TV por não saberem falá-la. Como último exemplo dessas falsas
imagens, cito o fato de que muitas pessoas pensam que o inglês é o idioma mais usado na internet.
Quando a rede mundial dos computadores foi criada, 100% das palavras utilizadas virtualmente eram nesse idioma. Hoje essa supremacia caiu e muito. Não passa de 40% o número de usuários que
trocam mensagens em inglês na internet hoje. Em programas criados exclusivamente em língua
inglesa, como o Orkut, o idioma mais falado é o português. Milhares de pessoas usam o espanhol, o
árabe, o alemão, o francês, o esperanto e até idiomas que muitos julgam extintos, como o latim, para
se comunicarem diariamente pela internet. Não vou insistir nesse último estereótipo. A perda de
supremacia da língua inglesa no uso da internet é uma coisa óbvia.

Para que compreendamos por que o inglês não pode ser considerado o esperanto do mundo é
necessário apresentar algumas questões sobre este último. O esperanto não pretende ser um idioma
obrigatório e muito menos imposto. Sua pretensão é ser uma possibilidade de comunicação entre
povos que falam idiomas diferentes, sem qualquer privilégio nacional, respeitando a cultura e as
diferenças entre os mesmos. Em seus quase 120 anos de existência o esperanto se espalhou por
todo o globo sendo falado e usado diariamente em mais de 115 países. Isso acontece por meio de
cartas, mensagens eletrônicas, postais, jornais, rádios, etc. Cumpre-se assim um dos objetivos
máximos de um idioma que se pretenda internacional: aproximar as pessoas dos quatro cantos do
mundo, superando os conflitos, as barreiras lingüísticas e os preconceitos.

Ludoviko Lázaro Zamenhof, criador do esperanto, propôs uma língua neutra para
comunicação entre os povos, sem visar asubstituição de nenhum idioma nacional. Ele próprio não se
cansava de dizer isso para os primeiros esperantistas e isso vem sendo repetido em todos os
congressos de esperanto até os nossos dias. Quando o idioma foi criado, foram estabelecidas algumas
regras essenciais juntamente com um vocabulário básico para compreensão do mesmo. Como todo
idioma, o esperanto tem sofrido acréscimo de neologismos e todas as outras coisas que se pode
imaginar na sucessão dos tempos. Isso além de promover um enriquecimento lingüístico, faz com
que cada esperantista se sinta participante do processo de criação do idioma.

Há quem acuse o esperanto de ser um projeto fracassado. Mas atendo-se ao movimento
esperantista em todo o mundo facilmente desmente-se isso. Podemos observar os congressos que
ocorrem todos os anos aqui no Brasil e em outros países, as associações esperantistas, os novos
professores que surgem, a publicação no próprio idioma, as traduções, os intercâmbios culturais etc.
O esperanto já é usado em dezenas de universidades em todo mundo. A rádio do Vaticano transmite
programação para o mundo inteiro usando-o. Há rádios em Pequim, Rio de Janeiro, Havana,
Varsóvia etc. João Paulo II sempre saudava os católicos também em esperanto durante as
festividades natalinas e de páscoa. Outros papas ao longo da história também manifestaram apoio ao esperanto. A biblioteca Nacional de Viena possui cerca de 50 mil títulos traduzidos e originais em esperanto. A própria Organização das Nações Unidas é favorável ao esperanto. A UNESCO também já manifestou seu interesse em duas oportunidades. Isso pode ser consultado nos arquivos dessas instituições. Durante a Eco-92 que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, houve uma conferência das organizações não-governamentais ambientalistas e um documento foi produzido e ratificado por todos os participantes fazendo declarações favoráveis ao esperanto. Mais sobre este tema pode ser lido em português nas páginas da Liga Brasileira de Esperanto.

Só uma língua que não esteja vinculada a um país em particular pode ser considerada
verdadeiramente internacional. O lema do esperanto já mostra que não se trata de uma língua que
pretende privatizar os discursos a uma comunidade específica: para cada povo a sua língua, para
todos o esperanto
. Ninguém precisa abdicar de sua língua materna, os esperantistas desejam
justamente o oposto. Com o uso do esperanto nenhum povo se encontrará em situação desfavorável
quanto ao discurso, todos ficam em situação de igualdade. Imaginem a contenção de gastos com
traduções, a diminuição dos problemas com relação ao desentendimento lingüístico, etc. Além do
que, o esperanto tem um sistema chamado Pasporta Servo, que integra esperantistas do mundo todo.
São mais de 1200 lares onde se pode fazer intercâmbio cultural. O simples fato de
ser um esperantista já integra a pessoa em um universo lingüístico freqüentado por mais de 10
milhões de samideanos do mundo inteiro.

Se tivéssemos que escolher um idioma que: integrasse pessoas possibilitando-lhes uma
igualdade perante as diversas formas discursivas; que as aproximasse garantindo-lhes direitos de
expressão; que criasse um ambiente de intercâmbio cultural; facilitasse os entendimentos etc., esse
idioma com certeza não seria um idioma nacional com pretensões imperialistas, financeiras e
autoritárias. Nenhum idioma é capaz de garantir uma segurança com relação ao mercado de
trabalho, pois isso é muito relativo, depende da empresa, do país, da época etc. O que o esperanto
defende é oposto ao autoritarismo e a petulância. Trata-se de uma possibilidade, uma sugestão feita
há mais de um século que tem ganhado força neste mundo dominado pela imagem e pela velocidade
da comunicação. Se alguém quiser utilizar as facilidades do esperanto para se comunicar e comungar
desse rico quadro de significados; se o desejo for aumentar a rede de relacionamentos em nível
internacional e apreender um idioma fácil, que alguns conseguem compreender em questão de dias,
eis uma opção.

Para cada povo sua língua, para todos o esperanto. São por esses motivos que
chegamos à conclusão de que o inglês não é e não tem condições de ser o esperanto do mundo.

 

NOTAS

Por neutro, Zamenhof e os esperantistas entendem um idioma que não seja próprio de um país. Que não seja imposto de cima pra baixo para atender exigências políticas ou religiosas. [^ retornar ao texto]

Samideano é o termo que os esperantistas usam quando vão saudar uns aos outros. Traduz-se por co-idealista. Sama (o mesmo) + ideano (aquele que partilha de uma ideologia ou idéia). [^ retornar ao texto]

 

BIBLIOGRAFIA

LORENZ, Francisco Valdomiro. Esperanto sem mestre. 5. ed. Rio de janeiro: FEB 396 p.
ZAMENHOF, Ludoviko Lázaro. Essência e futuro da idéia de uma língua internacional.
Zamenhof Editores. Goiânia, 1988.

 



Domeniko Vieira é historiador, filósofo e músico em Goiânia-GO e propôs este artigo ao Kultura Centro de Esperanto-Campinas. Contato: srodomeniko ARROBA yahoo.com.br.

   
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