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O domínio de um segundo idioma é algo que pode garantir
o sucesso pessoal num mundo
cada vez mais globalizado. Assim sendo, apreendê-lo é uma
necessidade básica para profissionais
de várias áreas. Para os universitários e para
aqueles que ainda almejam ingressar no cada vez mais
competitivo mercado de trabalho torna-se algo essencial. Até
aqui nada de novo, pois difícil encontrar
alguém que não concorde com tais afirmações.
Mas que idioma seria esse? Será que há um idioma
capaz de garantir toda essa segurança? Capaz de assegurar vaga
em mercado de trabalho?
Fornecer ao seu falante uma igualdade, atenção e respeito
no mundo da linguagem? E ainda
promover a abertura de relacionamentos em âmbitos internacionais?
É fácil encontrar pessoas que acreditam, principalmente
nos paises emergentes, que falar em
inglês é garantia de compreensão em qualquer lugar
do mundo. Que dominar este idioma
proporciona acesso a universidades do mundo inteiro e assegura certo
respeito no ato de falar.
Outros acreditam que uma vida no mundo moderno, todo repleto de computadores
ligados à rede
mundial; com incontáveis congressos sobre as mais diversas áreas
do saber; necessidade de
viagens internacionais a negócios; sem que se saiba o bendito
idioma é algo impossível. Já ouvi até
uma pessoa dizer que o inglês tornou-se o esperanto do mundo.
Penso haver bom senso por traz de algumas dessas afirmações.
É bom ser capaz de falar em
um segundo idioma tão conhecido e divulgado como o inglês;
é bem verdade que facilita muito a
nossa vida com relação: ao uso de novas tecnologias, eletroeletrônico,
instalação e uso de
softwares etc. Saber se comunicar nele garante sim certo status,
principalmente em nosso
emergente país, o Brasil. Mas daí a dizer que é
o esperanto do mundo?
Há muitas coisas que o inglês não é capaz
de fazer. Existem muitas imagens positivas criadas
pela mídia, em favor do lucro de empresas especializadas em vender
a ilusão de que basta dominar o
inglês para obter uma igualdade nos discursos perante as diversas
comunidades internacionais.
Estes estereótipos precisam ser questionados urgentemente. Creio
que a primeira barreira a ser
quebrada é a da pré-noção de que o inglês
é o idioma mais falado no mundo. Isso simplesmente não
é verdade. O mandarin, falado na China, ocupa o primeiro lugar.
O inglês é o terceiro da lista, logo
atrás do hindi. O argumento contrário é de que
essas duas línguas não podem ser citadas quando se
aborda essa temática, devido à supremacia populacional
de Índia e China. Contudo isso não serve
para dar veracidade à afirmação de que o inglês
é o mais falado no mundo.
Outro sonho é de que com este idioma uma igualdade dos discursos
em nível internacional
pode ser obtida. Para se falar e escrever bem em qualquer idioma materno
leva-se muito tempo, em
um segundo idioma então nem se fala! E a igualdade no ato da
fala está diretamente ligada ao
domínio do idioma. Para isso basta observar a crítica
tecida por aqueles que cultuam a língua padrão
aos que cometem deslizes de linguagem, chamando-os de incultos, assassinos
da língua, caipiras
etc. Como obter essa igualdade sem compreender as metáforas,
as piadas, as gírias recém-criadas?
Sendo o inglês escolhido como esse segundo idioma para um relacionamento
igualitário
internacional, os anglófonos não obteriam vantagens nessas
práticas discursivas? Variam muito os
estereótipos exibidos na mídia: desde empresários
sendo mal sucedidos em negócios internacionais
por usarem mal os termos da língua inglesa até crianças
que não conseguem se comunicar com
extraterrestres em propagandas de TV por não saberem falá-la.
Como último exemplo dessas falsas
imagens, cito o fato de que muitas pessoas pensam que o inglês
é o idioma mais usado na internet.
Quando a rede mundial dos computadores foi criada, 100% das palavras
utilizadas virtualmente eram nesse idioma. Hoje essa supremacia caiu
e muito. Não passa de 40% o número de usuários
que
trocam mensagens em inglês na internet hoje. Em programas criados
exclusivamente em língua
inglesa, como o Orkut, o idioma mais falado é o português.
Milhares de pessoas usam o espanhol, o
árabe, o alemão, o francês, o esperanto e até
idiomas que muitos julgam extintos, como o latim, para
se comunicarem diariamente pela internet. Não vou insistir nesse
último estereótipo. A perda de
supremacia da língua inglesa no uso da internet é uma
coisa óbvia.
Para que compreendamos por que o inglês não pode ser considerado
o esperanto do mundo é
necessário apresentar algumas questões sobre este último.
O esperanto não pretende ser um idioma
obrigatório e muito menos imposto. Sua pretensão é
ser uma possibilidade de comunicação entre
povos que falam idiomas diferentes, sem qualquer privilégio nacional,
respeitando a cultura e as
diferenças entre os mesmos. Em seus quase 120 anos de existência
o esperanto se espalhou por
todo o globo sendo falado e usado diariamente em mais de 115 países.
Isso acontece por meio de
cartas, mensagens eletrônicas, postais, jornais, rádios,
etc. Cumpre-se assim um dos objetivos
máximos de um idioma que se pretenda internacional: aproximar
as pessoas dos quatro cantos do
mundo, superando os conflitos, as barreiras lingüísticas
e os preconceitos.
Ludoviko Lázaro Zamenhof, criador do esperanto, propôs
uma língua neutra para
comunicação entre os povos, sem visar asubstituição
de nenhum idioma nacional. Ele próprio não se
cansava de dizer isso para os primeiros esperantistas e isso vem sendo
repetido em todos os
congressos de esperanto até os nossos dias. Quando o idioma foi
criado, foram estabelecidas algumas
regras essenciais juntamente com um vocabulário básico
para compreensão do mesmo. Como todo
idioma, o esperanto tem sofrido acréscimo de neologismos e todas
as outras coisas que se pode
imaginar na sucessão dos tempos. Isso além de promover
um enriquecimento lingüístico, faz com
que cada esperantista se sinta participante do processo de criação
do idioma.
Há quem acuse o esperanto de ser um projeto fracassado. Mas
atendo-se ao movimento
esperantista em todo o mundo facilmente desmente-se isso. Podemos observar
os congressos que
ocorrem todos os anos aqui no Brasil e em outros países, as associações
esperantistas, os novos
professores que surgem, a publicação no próprio
idioma, as traduções, os intercâmbios culturais
etc.
O esperanto já é usado em dezenas de universidades em
todo mundo. A rádio do Vaticano transmite
programação para o mundo inteiro usando-o. Há rádios
em Pequim, Rio de Janeiro, Havana,
Varsóvia
etc. João Paulo II sempre saudava os católicos também
em esperanto durante as
festividades natalinas e de páscoa. Outros papas ao longo da
história também manifestaram apoio ao esperanto. A biblioteca
Nacional de Viena possui cerca de 50 mil títulos traduzidos e
originais em esperanto. A própria Organização das
Nações Unidas é favorável ao esperanto.
A UNESCO também já manifestou seu interesse em duas oportunidades.
Isso pode ser consultado nos arquivos dessas instituições.
Durante a Eco-92 que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, houve uma
conferência das organizações não-governamentais
ambientalistas e um documento foi produzido e ratificado por todos os
participantes fazendo declarações favoráveis ao
esperanto. Mais sobre este tema pode ser lido em português nas
páginas da Liga
Brasileira de Esperanto.
Só uma língua que não esteja vinculada a um país
em particular pode ser considerada
verdadeiramente internacional. O lema do esperanto já mostra
que não se trata de uma língua que
pretende privatizar os discursos a uma comunidade específica:
para cada povo a sua língua, para
todos o esperanto. Ninguém precisa abdicar de sua língua
materna, os esperantistas desejam
justamente o oposto. Com o uso do esperanto nenhum povo se encontrará
em situação desfavorável
quanto ao discurso, todos ficam em situação de igualdade.
Imaginem a contenção de gastos com
traduções, a diminuição dos problemas com
relação ao desentendimento lingüístico, etc.
Além do
que, o esperanto tem um sistema chamado Pasporta
Servo, que integra esperantistas do mundo todo.
São mais de 1200 lares onde se pode fazer intercâmbio cultural.
O simples fato de
ser um esperantista já integra a pessoa em um universo lingüístico
freqüentado por mais de 10
milhões de samideanos
do mundo inteiro.
Se tivéssemos que escolher um idioma que: integrasse pessoas
possibilitando-lhes uma
igualdade perante as diversas formas discursivas; que as aproximasse
garantindo-lhes direitos de
expressão; que criasse um ambiente de intercâmbio cultural;
facilitasse os entendimentos etc., esse
idioma com certeza não seria um idioma nacional com pretensões
imperialistas, financeiras e
autoritárias. Nenhum idioma é capaz de garantir uma segurança
com relação ao mercado de
trabalho, pois isso é muito relativo, depende da empresa, do
país, da época etc. O que o esperanto
defende é oposto ao autoritarismo e a petulância. Trata-se
de uma possibilidade, uma sugestão feita
há mais de um século que tem ganhado força neste
mundo dominado pela imagem e pela velocidade
da comunicação. Se alguém quiser utilizar as facilidades
do esperanto para se comunicar e comungar
desse rico quadro de significados; se o desejo for aumentar a rede de
relacionamentos em nível
internacional e apreender um idioma fácil, que alguns conseguem
compreender em questão de dias,
eis uma opção.
Para cada povo sua língua, para todos o esperanto. São
por esses motivos que
chegamos à conclusão de que o inglês não
é e não tem condições de ser o esperanto
do mundo.
NOTAS
Por neutro, Zamenhof e os esperantistas
entendem um idioma que não seja próprio de um país.
Que não seja imposto de cima pra baixo para atender exigências
políticas ou religiosas. [^ retornar ao texto]
Samideano é o termo que
os esperantistas usam quando vão saudar uns aos outros. Traduz-se
por co-idealista. Sama (o mesmo) + ideano (aquele
que partilha de uma ideologia ou idéia). [^ retornar
ao texto]
BIBLIOGRAFIA
LORENZ, Francisco Valdomiro. Esperanto sem mestre. 5. ed. Rio
de janeiro: FEB 396 p.
ZAMENHOF, Ludoviko Lázaro. Essência e futuro da idéia
de uma língua internacional.
Zamenhof Editores. Goiânia, 1988.
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