| Por que o alfabeto latino,
se o Esperanto se propõe universal?
Claude Piron |
| Precisamos poder escrever e o alfabeto é mais prático que outros sistemas de escrita (ideogramas chineses, hieróglifos etc.). Não existe um alfabeto que seria adequado para o mundo inteiro. Exceto se pensarmos em algo totalmente novo, é inevitável que haja povos para os quais escrever e ler em Esperanto seja mais fácil que para outros. A escrita latina não é o sistema mais justo, apenas o menos injusto para a maioria. Pode-se olhar para isto como uma solução provisória, uma solução prática do problema, se um dia for decidido a elaboração de um alfabeto universal para a língua mundial. A escrita, com relação à língua, não é algo realmente essencial; é para uma língua como uma roupa está para o corpo. Se a maioria da humanidade preferisse, poderíamos vestir o Esperanto com outra escrita, mas de forma provisória o sistema funciona perfeitamente. Passar a um novo alfabeto inventado implicaria em muitos problemas técnicos. O alfabeto latino é o que usa a maioria das línguas hoje escritas. Geograficamente ele cobre
Em grandes federações, como foi a União Soviética e hoje é a Índia, diversas línguas têm seu próprio sistema de escrita; em outras palavras, não existe um único alfabeto ou sistema para o país inteiro. Não faria sentido dar preferência a um desses ao invés do alfabeto latino. Algumas línguas antes se escreviam com outro alfabeto. O turco, o swahili e o malaio usavam o alfabeto árabe, mas passaram para o latino. O vietnamita usava antigamente a escrita chinesa, mas desde o século XVII adotou-se o latino. O moldavo, que se escreveu com o alfabeto cirílico durante o período soviético, desde a queda da União Soviética se escreve com o alfabeto latino. É verdade que um bilhão de chineses usa os ideogramas, e este número pode ser impressionante, porém:
Pelo fato de que o inglês se tornou a primeira língua estrangeira na maior parte do mundo, 95% dos alunos de escolas de segundo grau que usam em sua própria língua outra escrita, aprendem as letras do alfabeto latino. Isto vale para a Coréia do Sul, o Irã (onde se pode escolher o francês, mas nada muda quanto ao alfabeto), a Índia, o Paquistão e muitos outros países (todos os árabes, se não me engano). O mesmo vale para a maioria dos alunos na Rússia, Ucrânia, Grécia e similares. No Japão, já na idade de dez anos todos os alunos aprendem nosso alfabeto. No Marrocos, Argélia e Tunísia as crianças aprendem a escrever em francês. Já que, diferentemente do inglês, em Esperanto a cada som corresponde uma letra e vice-versa, ler e escrever no alfabeto do Esperanto para jovens que já conhecem as letras, portanto para a imensa maioria que tenha passado do ensino fundamental, é uma meta que se pode alcançar relativamente rápido. É fácil criticar. É mais difícil apresentar uma alternativa útil e justa. O que os críticos do alfabeto latino propõem como sistema de escrita para uma língua mundial? Os que dizem "o Esperanto não é aceitável porque usa o alfabeto latino" deixam o problema sem solução. Mas uma solução é necessária. Na prática eles obrigam as pessoas que desejam poder se comunicar internacionalmente a usar a língua inglesa. Isto não só as obriga a dominarem o alfabeto latino, como também a usá-lo de uma forma muito menos fácil. |
Claude Piron é psicólogo e professor, e trabalhou no serviço de tradução da ONU e da OMS-Organização Mundial da Saúde. *traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas. |
artigo anterior |
diversas perguntas |
próximo artigo |