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Dos custos de uma língua em comum

Ottó Haszpra
Hungria

Artigo publicado na revista "Esperanto", Fevereiro 2003. Ttraduzido do Esperanto para o português pelo KCE e aqui reproduzido com a gentil permissão do autor.


1. Notas Introdutórias

É crença disseminada que o custo do plurilingüismo signifique os custos lingüísticos das instituições internacionais como a ONU, UNESCO ou da União Européia. De fato, as muitas centenas de milhões de dólares que vão para os serviços lingüísticos das organizações internacionais são uma ninharia se comparados aos custos do aprendizado de uma língua nacional que seja obrigatória como língua em comum para todas as pessoas.

Estou convencido de que a União Européia precisa ter uma língua em comum, que todos seus cidadãos compreendam bem, falem e escrevam sobre temas cotidianos e de suas próprias profissões, o que hoje apenas a elite lingüística é capaz de fazer. Ao mesmo tempo, as línguas maternas devem ser protegidas, usadas livremente e continuar a evoluir. O aprendizado da língua em comum deve ser fácil para qualquer cidadão de capacidade média, não deve roubar energia das línguas maternas e
não deve provocar o definhamento e extermínio destas.

A língua em comum deve ser uma língua nacional, o inglês por exemplo?

2. Considerações sobre o aprendizado do inglês (e outras línguas nacionais)

Uma pessoa de capacidade média pode dominar o inglês (ou outra língua de dificuldade média) após cerca de 2 mil horas de dedicação para poder utilizá-la satisfatoriamente bem em conversações cotidianas e em sua especialidade (o que no entanto não chega a ser o nível de um falante nativo!)

A cada ano cerca de 1,5% da população deve surgir como um novo proficiente em língua estrangeira. Por exemplo, na Alemanha, com 80 milhões de habitantes, isto significa 1,2 milhões de cidadãos que já estudaram cerca de 2 mil horas uma língua estrangeira. Se considerarmos o salário médio em 5 euros por hora, um estudante de língua estrangeira presta um trabalho gratuito no valor de 10 mil euros (ou dólares), enquanto que o tempo total de estudo em 2,4 bilhões de horas tem um equivalente de 12 bilhões de euros/ano.

Dos 440 milhões que não são de língua inglesa, dentre os quase 500 milhões de habitantes da União Européia, a cada ano deverão surgir novos 6,6 milhões de proficientes em uma língua estrangeira, o que significa 13,2 bilhões de horas de dedicação, ou seja, 66 bilhões de euros a cada ano. Adicionando-se os custos do ensino, o total será de 73 bilhões de euros/ano.

Os falantes nativos do inglês na União Européia não perderão tempo nem dinheiro no aprendizado do inglês. Eles poderão utilizar esse tempo para um estudo mais aprofundado de sua profissão ou numa atividade remunerada (por exemplo no ensino de sua língua materna a estrangeiros).

Se toda a população da Terra, 6,4 bilhões de pessoas (dos quais se tiram 400 milhões, ou seja, os 6,2% de falantes nativos do inglês), tiver que dominar o inglês, serão 90 milhões de novos proficientes a cada ano, que dedicarão 180 bilhões de horas de estudo, ou 900 bilhões de euros por ano. Acrescentando-se aos custos do ensino de língua estrangeira, o total atinge cerca de 1 trilhão de euros/ano.

Deve-se notar que em 1999 as 15 maiores potências gastaram juntas 570 bilhões de dólares (ou euros) em defesa. Para que o mundo todo aprenda o inglês será necessário quase o dobro. [N.T.: Para efeito de comparação, o PIB brasileiro em 2000 foi de 596 bilhões de dólares (euros)]

3. Considerações sobre o aprendizado do Esperanto

Ser fluente em Esperanto exige em média apenas 200 horas de estudo/aluno, portanto aceitar o Esperanto reduziria em dez vezes o tempo e o equivalente financeiro (custo) do aprendizado, em comparação ao inglês. Na Alemanha, com 1,2 milhões de novos proficientes/ano, o custo individual seria apenas 1000 euros/aluno. No país todo, o aprendizado precisaria de 240 milhões de horas/ano ou 1,2 bilhões de euros/ano. Somando-se os custos de ensino, o total seria 1,3 bilhões de euros/jaro.

Na União Européia para toda a população (de língua inglesa ou não) com 7,5 milhões de novos proficientes/ano seriam aplicadas 1,5 bilhões de horas/ano, ou 7,5 bilhões de euros/ano. Com os custos de ensino, cerca de 8,3 bilhões de euros/ano.

No mundo, da população total deveriam surgir 96 milhões de novos proficientes a cada ano, que ocupariam 192 bilhões de horas de estudo, cujo equivalente financeiro seria - se nesse tempo um tanto distante no mundo todo houvesse níveis de vida e salários equivalentes aos da Europa - 96 bilhões de euros/ano. Com o acréscimo do custo do ensino, o total seria de cerca de 105 bilhões de euros/ano.

4. Conclusões

Escolher o inglês como língua em comum significa não apenas uma discriminação política, mas provoca também uma piora da capacidade de competição e queda no nível de vida de quem não é falante nativo (pelos impostos que devem ser cobrados para cobrir os custos de manutenção da atual geração que estuda a língua), enquanto que a escolha do Esperanto não provoca discriminação
nem na política, nem no aprendizado de línguas, nem nas conseqüências econômicas.

O Esperanto como segunda língua em comum não impõe qualquer obstáculo contra o aprendizado de quaisquer outras línguas. Pelo contrário, saber Esperanto facilita em muito o aprendizado de outras línguas, seja de línguas oficialmente obrigatórias (para minorias em alguns países), seja de outras escolhidas por prazer. O Esperanto ajuda a elevar até o domínio e o nível da língua materna.

Veja detalhes nas referências abaixo:

Haszpra, Ottó: La natura shargho de la lingvolernado kaj ghia radikala
malpliigeblo [A carga natural do aprendizado de uma língua e
sua possibilidade de redução radical]. Scienca Revuo 3/2002 e
Debrecena Bulteno 131, 2002. (em ambos com uma vasta bibliografia)

The Defence Budget.
In: Stockholm International Peace Research Institute
Yearbook, 2000
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