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Esperanto e Contemporaneidade
Luiz Signates
Jornalista e professor da Universidade Federal de Goiás. Especialista em Políticas Públicas pela UFG. 
Mestre em Comunicações pela UNB. Doutor em Ciências da Comunicação, pela USP

Conferência proferida em 15 de julho de 2001, na Abertura do 37o. Congresso Brasileiro de Esperanto, em Brasília.

Prezados senhores e senhoras:

Era o mês de julho de 1905, há exatamente 96 anos atrás. Lázaro Zamenhof estava em Paris, de onde, no mês seguinte, se dirigiria para Boulogne-sur-Mer, a fim de participar do primeiro congresso universal de esperanto. O iniciador da língua internacional acabara de receber, do dr. Emile Javal, um convite para estabelecer uma cátedra na Sourbonne e, dali, do centro intelectual do mundo daquela época, liderar a expansão do movimento esperantista. Conta López Luna que a oferta fora demais para a sua humildade, e por isso ele a recusou. No momento seguinte, foi ter com o Marquês Louis de Beaufront, um ilustre e vaidoso esperantista que, segundo se conta, por razões de orgulho pessoal, não compareceu ao primeiro congresso. Com Beaufront, Zamenhof manteve um diálogo singular, cujos pontos principais me parecem fundamentais para o que pretendo deixar-lhes como contribuição em forma de comentário, nesta noite.
Após lamentar a ausência do marquês no primeiro congresso, o criador do esperanto deixou claro que pretendia consultá-lo quanto a qualquer formulação, mas que não teria como se opor a decisões de maioria, dentro do evento.

Ao fazer esta advertência, inspirada na ética democrática, Zamenhof ouviu de Beaufront que este apenas teria restrição a qualquer modificação que viesse a ser feita no idioma. “O esperanto deve permanecer tal como o criou, sem acrescentar nem tirar uma só vírgula, e devemos excomungar definitivamente das nossas fileiras os atrevidos que tentarem reformá-lo”, afirmou Beaufront, peremptoriamente.

A reação de Zamenhof foi dócil, mas precisa. “... há algum engano na sua forma de pensar”, disse ele. E completou: “Um idioma, qualquer idioma, não é uma coisa morta, como não estão mortos aqueles que o usam. Eu tão só dei o fundamento. Um idioma não se cria nem se dirige com decretos”.
Visivelmente contrariado, o Marquês de Beaufront, afirmando literalmente, pasmem os senhores, que jamais se enganava na vida, ainda acrescentou: “O que também me tem preocupado é esse idealismo, essa espécie de mística que o doutor liga ao esperanto tão sem motivo. Parece-me que isso está fora do esperanto, pois este é, em suma, um idioma, para que o usem os comerciantes nas suas relações internacionais, e não outra coisa”.

“Nunca!”, respondeu imediatamente Zamenhof. “Que o usem os comerciantes como quiserem, mas o esperanto está absolutamente ligado a um idealismo pelo qual todos devemos lutar: unir os homens por sobre as fronteiras, acabar com as guerras e os ódios, fazer mais felizes os seres humanos. Esse é o verdadeiro fim do esperanto, a sua ‘idéia interna’.”

“Isso são tolices, Dr. Zamenhof: nada nem ninguém une os homens. É muito ingênuo, meu querido doutor”.
Zamenhof preferiu calar-se, até porque, contam seus biógrafos, era avesso a bate-bocas. Entretanto, calado, ainda ouviu o marquês dizer que se acreditava o principal esperantista do mundo, ante o que, o criador do esperanto pôs-se de pé e encerrou a conversa, dizendo-lhe: “Permita-me, senhor... mas eu ainda não morri”.

Esta narrativa está contada no capítulo nove da segunda parte da obra “Zamenhof, iniciador del esperanto”, do escritor argentino López Luna, cuja edição em português foi publicada em 1959, ano do centenário de Zamenhof, traduzida por Carlos Domingues, então presidente da Liga Brasileira de Esperanto. López de Luna descreve o marquês de Beaufront como um homem arrogante e pretensioso, que anos depois trairia o ideal esperantista, ao propor o idioma Ido, na verdade uma revisão do esperanto. Esse diálogo entre Zamenhof e o marquês, apesar de seu estilo romântico, estereotipando os personagens pela dicotomia do bem e do mal, deixa clara a tensão sobre a qual pretendo hoje fundar estes meus pequenos comentários.
O diálogo entre Zamenhof e Beaufront marca duas tensões: primeiro, o esperanto é uma língua artificial como uma máquina, ou é uma língua viva, como um idioma qualquer? E, segundo, que se liga à primeira: o esperanto é uma proposta de idioma para a interconexão internacional ou traz consigo alguma proposta filosófica para a Humanidade? Minha tese, esta noite, é que o esperanto não é nem pode ser um mero instrumento idiomático, mas tem implicações sociais, políticas e culturais que, penso eu, devem ser mais profundamente discutidas pelos esperantistas e simpatizantes.

Em outras palavras, entre Beaufront e Zamenhof, fico com Zamenhof, e não por uma razão dogmática, dessas que se obriga a dar razão ao fundador, a fim de preservar uma suposta pureza original da proposta esperantista. Hoje em dia, não é preciso ser um cientista social para compreender que não existe pureza original de coisa alguma; toda pretensão por pureza original não passa de mera defesa de espaços de poder e legitimação dos grupos que reivindicam para si a hegemonia da capacidade de interpretação. Não. Ficar com Zamenhof contra Beaufront implica posições muito mais sérias e de grande implicação para a compreensão do que seja ou do que deva ser, no fundo, a proposta esperantista para o mundo.
Ficar com Zamenhof contra Beaufront significa estabelecer uma postura contrária a uma visão instrumental da língua e à própria idéia de neutralidade. Tais questões são comuns na discussão da lingüística de hoje – e certamente esta é uma das mais ponderáveis razões pelas quais os meios acadêmicos nesse campo guardam ainda uma forte rejeição à proposta esperantista. É preciso ter, contudo, tanto uma visão histórica do surgimento do esperanto, quanto uma visão complexa do ponto de vista de seu iniciador, para compreendermos em que termos se pode defender a atualidade da proposta esperantista, no mundo contemporâneo.

A proposta esperantista traz as marcas do idealismo positivista do século 19, mas, pela sua profundidade e pelo seu alcance, também ultrapassa esse referencial. Lázaro Zamenhof lançou os olhos sobre os conflitos interétnicos da Polônia de sua época e traduziu esse conflito a partir do mito de Babel: os homens se matavam porque falavam línguas diferentes. Era preciso, pois, oferecer aos homens uma alternativa idiomática, que lhes possibilitasse enxergar-se como iguais, sem exigir deles a anulação das próprias diferenças, e, para isso, a alternativa tinha que conter em si a realização do ideal da neutralidade. Isso feito, acreditava Zamenhof, e os homens se utilizariam da linguagem naquilo que a linguagem traz como um telos natural: o entendimento seria alcançado e, com ele, a paz.

É extraordinário ver como Zamenhof esteve dentro de seu tempo. É seguro dizer que Zamenhof foi um iluminista; a solução para os problema da vida humana deveriam proceder da razão. É também certo afirmar que Zamenhof foi um positivista. A solução racional guarda consigo as marcas da neutralidade científica, que produz, na segurança dos meios, a felicidade dos fins. É ainda correto pensar que Zamenhof foi um idealista, no sentido filosófico, isto é, um não materialista, já que explicava a violência real da vida humana não na concretude das situações econômicas e políticas da existência social, e sim a partir da ausência de uma situação ideal de fala, a do acordo lingüístico, modo de pensar que redundaria na proposta esperantista de inspiração homaranista. Eis, pois, que a solução esperantista se mostra como a cara da Europa do século 19.

Fosse o mundo de fato como o descreve o iluminismo positivista europeu do século 19, o esperanto seria hoje o idioma mais falado na Humanidade. Mas, feliz ou infelizmente, a verdade é outra, e, para compreender isso, é preciso lançar os olhos sobre o século vinte e para as profundas e dolorosas transformações que esse período nos trouxe. Transformações, aliás, que atingem em cheio a proposta esperantista nos moldes como a pensou Zamenhof, e que, a meu ver, exigem de movimentos como o esperantista uma profunda reflexão a respeito de suas alternativas para o mundo contemporâneo.

Se o século 19 foi o século do sonho racionalista, o sonho de que a razão, ao desenvolver a técnica e, com esta, viabilizar a indústria, produziria a abastança e a justiça; já o século 20 foi o século da decepção com esse sonho. A crença européia na razão foi duramente questionada com o advento da segunda guerra mundial. O Estado nazista foi, sem dúvida, a realização até o limite do Estado racional e industrial. Com a tragédia nazista, o homem europeu descobre que a razão, longe de ser neutra ou de garantir o equilíbrio social, pode ser perversa, que a técnica pode ser artifício de dominação e desumanização. Mas, não somente isso. À esquerda do espectro político, o anseio libertário movimentado pelas idéias marxistas culminaram em Estados totalitários e opressores, incapazes de responder às grandes questões humanas e às urgentes necessidades sociais. Pensado para ser o século da abastança e da justiça, o século vinte foi o século das guerras mundiais, da reprodução global das desigualdades e injustiças, todas elas patrocinadas pela razão.
Será, contudo, o fim da razão? Será a afirmação definitiva da loucura humana? Será o desespero o nosso único destino? Não. A razão é que se tornou plural. Nesta virada de século, será o filósofo social alemão Jürgen Habermas, último remanescente da famosa Escola de Frankfurt, quem dirá ser ainda possível manter as esperanças na racionalidade moderna. Entretanto, não se trata de toda e qualquer racionalidade. Habermas distingue com precisão a razão estratégica – ou a racionalidade do poder, da força, da coerção, que tem no Estado sua institucionalidade padrão –, a razão instrumental – ou a racionalidade da técnica, do dinheiro, da economia, que tem na empresa sua instituição modelo –, e a razão comunicativa, a racionalidade da linguagem, das possibilidades do entendimento humano. O filósofo alemão traz a razão plural para o campo fértil da ética, a fim de questioná-la, cobrando dela as promessas do iluminismo.

É interessante observar, amigos esperantistas, que, ao trazer a questão da racionalidade para o âmbito da ética, Habermas situa a razão crítica, na qual podemos ainda alimentar as esperanças no futuro da Humanidade, não na economia, não nas relações de poder, mas na linguagem. É pela linguagem que o homem pode se tornar inteligível, verdadeiro, confiante e respeitoso. É pela linguagem que os homens podem – ou não – se entender. A linguagem, contudo, nesse caso, não é pensada como um idioma, mas sim como o lugar de realização de uma ética. Habermas pensa pragmaticamente: falar é agir socialmente. Habermas pensa politicamente: o sentido da democracia é proporcionar condições de expressão livre para todos, a fim de que todos possam produzir a sociedade justa e fraterna.

Sem que tenhamos que produzir uma visão habermasiana do esperantismo, o que seria complicado, forçosamente temos que posicionar o ideal esperantista em face das transformações históricas do pensamento filosófico no mundo contemporâneo. Em outras palavras, parece necessário repensar o movimento esperantista a partir dos referenciais da pluralidade da razão, isto é, do fracasso da razão estratégico-instrumental, e também a partir de uma visão ética da linguagem, esta já observada dentro de um prisma pragmático. E é nesse ponto que se adensa a nossa modesta proposta de reflexão crítica aos companheiros esperantistas.

O fracasso da racionalidade instrumental enquanto proposta ética de transformação da Humanidade atinge em cheio o ideal esperantista, pelo menos da forma como tenho observado que ele vem sendo concebido no Brasil. Entre nós, ainda se pretende que a língua seja apenas um instrumento, que contenha em si um conteúdo de neutralidade em relação às ideologias e práticas sociais e, nesse contexto, a proposta esperantista se apresenta como algo que obrigatoriamente não deve se envolver com nenhum dos sentidos ideológicos, culturais e políticos entre os quais desesperadamente se acotovelam os seres humanos. Visto desse modo, é como se o idioma tivesse um valor em si mesmo, uma espécie de essência capaz de se apresentar como alternativa para todo e qualquer sentido da história. Dentro de semelhante abordagem, as atividades dos esperantistas acabam se reduzindo à mera produção de escolas e cursos de idioma, e à busca quixotesca do apoio irrestrito dos mais variados movimentos e instituições, resguardando-se, inclusive, de assumir compromissos ideológicos de qualquer espécie com tais grupos. Uma visão instrumental da linguagem e, por conseguinte, do próprio esperanto, coincide com a idéia do Marquês de Beaufront, em seu célebre entrevero com Zamenhof, e reduz o esperanto à menor de suas contribuições ao futuro da Humanidade.

Meus amigos:
Vivemos um mundo de paroxismos. A mundialização da economia e a globalização cultural despontam como o clímax do processo de expansão do capitalismo, iniciado no tempo das caravelas. Estendem-se as redes de telecomunicações por toda a superfície do planeta e, por meio delas, o modo de produção e consumo da sociedade capitalista atinge desde a intimidade de nossas casas até as mais longínquas paragens. Nessa dinâmica, povos e culturas sofrem uma brutal aproximação. Digo brutal, porque não se trata de um movimento que surge das relações interétnicas ou interculturais, em bases de convivência mútua e livre, e sim uma imposição econômica dos países mais ricos do mundo. A cada dia que passa, deixam de existir as tribos e as culturas tradicionais. O processo de expansão global do capitalismo é genuinamente violento e etnocida. Até mesmo a idéia de “oriente”, que este congresso tematiza, idéia essa inventada pelo ocidente para nomear o que se lhe afigurava como estranho, até essa idéia deixa de ter sentido. O mundo, na verdade, se ocidentalizou, ou, talvez mais propriamente, se “estadunizou”.

Orientada pela racionalidade estratégico-instrumental das economias capitalistas desenvolvidas, a globalização não opera, contudo, uma homogeneização das formas de vida. Aquilo que, para muitos entusiastas, aparenta ser a realização do sonho de Marshal McLuhan da aldeia global, é, na verdade, a abertura em escala mundial das portas de um mundo altamente complexo e perigosamente conflituoso. Interconectado de forma obrigatória, as culturas e civilizações não têm mais a alternativa de se resguardar nos confins de suas próprias identidades. Ante as telas das televisões a cabo e a satélite e dos computadores plugados na internet, não sobrevivem as identidades senão se transformando em identidades globais, difusas, permeadas pelos sentidos da pluralidade, assumindo todos os riscos que essa pluralidade carreia. Identidade global, contudo, não é termo que possa ser usado no singular, e sim no plural, significando conflito, significando a dialética de uma negociação atravessada por interesses econômicos e políticos e por sentidos culturais e sociais de enorme variedade. Além disso, não há um Estado mundial, garantindo direitos e justiça eqüitativa para as populações em situação de exclusão ou subalternidade. A Babel que Zamenhof viu na pequena Bialystok, onde nasceu, se estendeu para o mundo inteiro e alcançou sentidos que ultrapassam em muito o das barreiras idiomáticas.

Eis porque, em face da atualidade do pensamento filosófico e lingüístico e das transformações que atravessam o mundo contemporâneo, cabe ao movimento esperantista contribuir para que novas soluções sejam oferecidas. Um mundo violentamente plural é um mundo que clama por uma ética de convivência em termos de alteridade. Este mundo não clama simplesmente por um idioma internacional, mas também por uma ética na qual as diferenças, colocadas involuntariamente em contato, não redundem em guerras sem fim. Os esperantistas, enfim, talvez precisem renovar as idéias básicas de Lázaro Ludovico Zamenhof, quando ele falava em uma “idéia interna” que presidia a proposta esperantista. Estudando o homaranismo, observa-se claramente que Zamenhof não tinha uma visão puramente instrumental do esperanto, não o concebia como algo desataviado de um propósito muito mais alto do que oferecer um meio de comunicação ou uma solução para a diversidade lingüística. Zamenhof queria a paz, sonhava com o entendimento humano.

Ao criar o esperanto, um idioma feito para ser a segunda língua dos povos, um idioma extraordinariamente racional e lógico, sem dúvida uma das mais belas criações do pensamento positivista, ao criar o esperanto, Zamenhof pretendeu, sem dúvida, oferecer uma linguagem neutra, desataviada dos interesses e egoísmos étnicos e nacionalistas – mesmo a proposta homaranista trabalha com esses referenciais, e não seria justo cobrar de Zamenhof uma visão clara que apenas se consolidaria na segunda metade do século vinte. Entretanto, jamais quis Zamenhof que o esperanto fosse descomprometido com as causas humanitárias e progressistas alimentadas pelas diferentes sociedades. A discussão com de Beaufront é claríssima a esse respeito. Peço licença para repetir o que ele afirmou ao marquês: “o esperanto está absolutamente ligado a um idealismo pelo qual todos devemos lutar: unir os homens por sobre as fronteiras, acabar com as guerras e os ódios, fazer mais felizes os seres humanos. Esse é o verdadeiro fim do esperanto, a sua ‘idéia interna’.”

Eis, pois, que a luta esperantista não é nem pode ser simplesmente pela difusão ou pelo ensino de uma língua. A idéia de uma língua não pode ser um dogma. Não pode subsistir por si mesma. Se, por trás do ideal esperantista, prevalecer uma visão essencialista e instrumentalista da linguagem, o esperanto não será mais do que uma religião idiomática, o que é singular e talvez único no mundo e na história, mas não passará de um exotismo condenado ao fracasso. Isso porque, por trás de uma visão  essencialista e instrumentalista da linguagem estará um suposto utilitarista e positivista do ser humano e das relações sociais, algo que já não se sustenta nem filosófica, nem cientificamente. O esperanto, meus amigos, não vale em si mesmo. Seu valor está ligado ao compromisso social que demonstrar com as questões da angústia e do sofrimento humanos. Um movimento esperantista com pretensões de neutralidade e descomprometimento para com as causas da justiça, da democracia, dos direitos e da paz, arrisca-se a definhar a serviço de interesses e de hegemonias vigentes, e a ficar ilhado em grupos sem qualquer expressão social ou política. O esperanto, a meu ver, só vencerá se e quando resgatar o homaranismo, atualizando-o em relação às conquistas da filosofia e da ciência contemporâneas, e colocá-lo como a proposta mãe, à qual a alternativa idiomática irá obrigatoriamente servir. O esperanto, enfim, será avaliado pela história não pela quantidade de pessoas que o falar, e sim pela capacidade que tiver de produzir o entendimento, a solidariedade e a paz social. Muito obrigado!


 
 
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