| A via da Cidade
do México*
Mark Fettes (Canadá) . |
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O tema do 5o. Congresso Panamericano de Esperanto (México, 15-21 de Abril 2001) inspirou o palestrante principal, Mark Fettes, a fazer uma ampla análise e um prognóstico abrangente do papel do Esperanto em um mundo agora voltado principalmente para a cultura do comércio. Nosso tema "Um continente, diversas histórias" já estabelece um contraste entre união e separação, entre pontos comuns e diferenças. Uma dialética muito conveniente para um Congresso de Esperanto, certamente. Mas o interessante é que a diversidade aparece em primeiro lugar como algo histórico: não se fala nas atualidades distintas, nem em diversos futuros. Quero então estender essa dialética em uma nova direção, partindo da história, passando pelo presente e mirando adiante para duas vias possíveis na evolução do mundo. |
revista "Esperanto" 1137
(6), de junho 2001,
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Vôos em direções distintas O acaso me forneceu dois rótulos prontos para essas vias. Enquanto eu viajava para cá [Cidade do México] ao sul do Canadá ocidental, aviões de diversos países voavam para o norte, para o Canadá oriental, levando os representantes dos estados para uma conferência do Pacto Americano de Livre Comércio [ALCA]. No centro da cidade de Quebec, a polícia ergueu uma barreira de três metros de altura para separar os manifestantes e o pessoal da ALCA; e os grandes jornais canadenses minimizaram todas as críticas, afirmando que o livre comércio serve aos interesses de todos. Vou então falar da via de Quebec e da via da Cidade do México - a nossa via. Eles falam do livre comércio; nós, da livre comunicação. Entretanto as diferenças são mais profundas do que se poderia deduzir dessa fórmula simplista. Notemos primeiramente um importante ponto em comum. Em ambos lugares se fala da remoção de muros construídos pelos estados nos séculos XIX e XX, quando o modernismo floresceu. Procurando dominar o mercado interno, os estados introduziram cotas alfandegárias, impostos e sobretaxas que limitaram o comércio internacional e criaram um sistema complexo de dependência mútua entre os mundos político e comercial. Procurando dominar a cultura interna, os estados criaram sistemas educacionais monolíngues e de diversas maneiras colocaram obstáculos ou sufocaram o uso público de outras línguas, criando uma interrelação complexa entre línguas cultas, etnia e classe social. Portanto, em ambos os casos, a criação de muros entre as nações, tanto os muros comerciais como os de comunicação, esteve intimamente ligada ao fortalecimento das hierarquias sociais internas às nações. A esta importante conclusão nós voltaremos depois. Os estímulos
do modernismo
Vou falar primeiro dos aspectos positivos dessa cultura, porque existem pelo menos dois, apesar do fato que talvez todos nós nos inclinemos a ter uma relação crítica a ela como um todo. Em primeiro lugar, trata-se de uma cultura de inclusão, cujo crescimento certamente ajudou a dar impulso na evolução para sociedades com menos discriminações. Em segundo lugar, é uma cultura dinâmica, que talvez de forma inconseqüente, mas com relativa freqüência, premia a criatividade e a iniciativa. Não desprezemos esses valores, que muito contribuem para a sua força de atração e disseminação. Porém observemos também que esses valores têm o seu lado obscuro. Com o inclusivismo normalmente caminha o desprezo ou a minimização das diferenças, enquanto o culto do novo costuma acompanhar o esquecimento do velho. Além disso, a conversão rotineira de todos os valores em contabilidade e números de balancete tende a fazer esquecer que por trás está uma realidade complexa que deve ser tomada em alta consideração. Pelo jeito, essas abstrações atraem principalmente os homens, e de fato a cultura do comércio continua altamente machista, apesar de todas as mudanças sociais das últimas décadas. Os perigos da
liberdade do cliente
Há uns dez anos, o norte-americano Francis Fukuyama publicou um ensaio sobre o "Fim da História". Nele argumentava que a vitória da cultura do comércio (ele a chamava por outro nome, não importa) sinaliza o ápice da evolução social: tendo vencido, essa cultura saberá se manter para sempre. Para ele, portanto, a diversidade histórica, de que trata o tema do nosso Congresso, é algo que deva ser superado, abandonado. Histórias diversas, mas um futuro. Essa ideologia tem uma força motriz: seus adeptos sentem-se como que surfando nas ondas da evolução mundial. Em Quebec certamente estão funcionando convicções parecidas. Com o Esperanto
para a Eternidade
Lembremos, como já mencionei, que o sistema de comunicação mundial não se baseia na razão - ninguém o planejou - mas em interesses, não apenas dos estados, mas também das etnias, classes e outros detentores de poder na vida política e econômica. A comunicação internacional ou, mais amplamente, intercultural está coordenada com as hierarquias sociais dentro das nações. Pensem, por exemplo, quanto poderia mudar o status dos falantes de espanhol dos Estados Unidos se o espanhol atingisse o mesmo nível de uso internacional que o inglês; ou, de forma inversa, como o prestígio do russo como língua internacional desabou após a queda da União Soviética. Então eis aqui um princípio geral: não se pode mudar o sistema lingüístico mundial sem mudar os sistemas lingüísticos nacionais, em conjunto com as relações sociais que eles representam. A disseminação da Internet já traz mudanças sensíveis no sistema de comunicação do mundo, que nem as instâncias nacionais nem a cultura do comércio conseguem controlar. A disseminação do Esperanto promete uma subversão ainda mais revolucionária - não o fechamento, mas exatamente uma reabertura das portas da História. Porque embora a cultura do comércio seja transnacional, ela depende das nações, organizadas em estados, para fabricar seus mercados. Sistemas educacionais, legislações, meios de comunicação homogeneizantes são necessários para vencer a diversidade e educar consumidores de acordo com as necessidades do comércio de massa. O Esperanto simplesmente não funciona nesse esquema, porque ele nunca se tornou instrumento das relações hierárquicas entre etnias e classes sobre as quais se baseia o sistema do estado, nem existem razões para adotá-lo como língua da vida econômica cotidiana. É um outro tipo de língua. E se nós já chegamos a essa conclusão, nós podemos perguntar mais: que tipo de língua? Que tipo de cultura ela representa? E que tipo de liberdade, que futuro ela oferece? Para me guiar nessa pesquisa, não encontrei instrumento melhor que o Manifesto de Praga, que lista e explica brevemente sete premissas essenciais do movimento pelo Esperanto. Vou segui-las na ordem, questionando em cada caso como a via de Quebec e a via da Cidade do México diferem entre si.
Os esperantistas, por outro lado, costumam exagerar na direção contrária: suas declarações às vezes dão a impressão de que com a mudança de algumas leis poder-se-ia garantir a preservação de todas as línguas e a igualdade para seus falantes. Existem no entanto grandes diferenças entre uma língua usada oralmente por uns milhares de pessoas e uma língua integrada na economia industrial de cem milhões. Princípios e leis não mudarão isto. O que nós aqui na Cidade do México propomos é uma base radicalmente nova para a busca de soluções eficientes e justas: ou seja, relacionar-se numa igualdade de comunicação. Nunca se tentou isto. Sempre na história humana os mais fortes estabeleceram a estrutura de comunicação, fazendo-a parecer neutra, absoluta, indiscutível. As experiências comprovaram-na um instrumento mais poderoso que as armas e as moedas. Você ainda se admira que em Quebec não se queira nem ouvir falar sobre o Esperanto? Não só não querem ouvir: eles não podem ouvir, pois essa idéia subverteria a visão de mundo que eles têm.
O orgulho de discordar
Poucas pessoas ainda têm consciência de que existe uma alternativa à via de Quebec. Ainda menos pessoas têm consciência do papel-chave que o Esperanto pode desempenhar nisso. Temos então que cultivar essa consciência! A história e seu maravilhoso patrimônio de diversidade humana não devem acabar em nós! Pode-se escolher: são necessárias apenas a consciência e a vontade. Vamos desenvolver e fortalecer isto, aqui em nosso Congresso e voltando para casa, para que nosso apelo atinja aqueles milhões que batalham pela verdadeira liberdade - não a liberdade do comércio, mas a única liberdade merecedora deste nome - a liberdade do homem.
* artigo traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas |
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| Resolução
do 5o. Congresso Panamericano de Esperanto,
Cidade do México, de 15 a 21 de abril 2001 Tema: "Um continente, diversas histórias" Nesta semana em que representantes dos países de toda a América debatem a união comercial do continente, nós, falantes de Esperanto vindos de todas as regiões da América e de outras partes do mundo, apelamos para uma outra união:
Na Cidade
do México, 21 de abril de 2001.
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