Esperanto, o filme*
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Esperanto]
Anna Lietti
jornal "Le Temps"
de 28.04.2001
Lendo os jornais nesta semana, por um momento eu sonhei que talvez eu devesse cuidar de marketing. A informação estava no 24 Heures ["24 horas", um diário de Lausanne, N.T.]: O Esperanto, que em breve será ensinado no Clube Escolar Migros, é, segundo essa informação, a segunda língua do planeta Internet. Essa afirmação talvez seja demasiadamente otimista, mas é certo que a cultura dos grupos de discussão na rede rejuvenesceu a "universala lingvo" do dr. Zamenhof.
Nem sei se sou favorável à idéia de se adotar o Esperanto ao invés do inglês como língua de comunicação planetária. Mas eu gostaria muito de conceber sua estratégia de marketing. O produto é de fato excelente e bastaria um pequeno empurrãozinho para fazê-lo decolar.
Primeiro trunfo: o Esperanto tem uma mitologia na sua criação, com um herói que as massas adorariam: Luís Lázaro Zamenhof, um jovem (e bonito, por que não? não sejamos mesquinhos) médico polonês que cresceu num ambiente de conflitos nacionalistas e étnicos, no final do século XIX, e que gerou uma utopia de língua comum, graças à qual finalmente os povos compreenderiam uns aos outros. Dizem que os produtores de Hollywood se cansam de procurar temas. Este não seria perfeito para o Oscar de melhor figurino? Meu primeiro passo de marketing seria vender o roteiro do filme na região de Los Angeles.
Segundo trunfo: o Esperanto é a língua ideal para aqueles que batalharam em Seattle, e para os seus colegas. Se eles adotassem o Esperanto, milhões de pessoas que são contra a globalização econômica sentiriam que estão fazendo um ato de resistência simplesmente dizendo "salon, mi petas" (passe-me o sal, por favor). E certamente eles se compreenderiam mutuamente nos quatro cantos do planeta, porque o Esperanto é tão internacional como o inglês. A diferença é que ele é internacional de uma forma neutra, não-imperialista.
Claro, os terceiro-mundistas vão logo dizer que essa língua pretensamente universal tem sons e aspecto por demais europeus. Os esperantistas russos e japoneses vão reagir dizendo que, em todo caso, para se relacionar com o mundo inteiro eles já precisam aprender o alfabeto latino. E no que diz respeito à pronúncia, o Esperanto está para o inglês assim como uma dança de roda está para a roda de tortura medieval. Minha estratégia de marketing incluiria então um curso de Esperanto para José Bové.
Terceiro trunfo: a língua de Luís Lázaro pode ser aprendida de modo extremamente fácil e rápido. Não tem a ortografia atazanadora que vem do grego, conjugações complicadas, nem exceções às regras: ela se caracteriza pela ortografia cristalina e uma sintaxe regular, cujos fundamentos podem ser assimilados em não mais do que dez horas. Quem poderia apresentar algo melhor? Ela tem tudo para atrair muitos dos estudantes que eu conheço. Bastaria informá-los.
Será que eu estou ouvindo alguém dizer "Vamos lutar para que o Esperanto seja ensinado nas escolas"? Não, não, mil vezes não! Isto poria tudo a perder! O Esperanto deveria ser uma língua essencialmente extra-classe, uma língua alternativa, do moleque de rua, uma língua da criança contra a dos pais. E, claro, depois de vinte anos, a língua que lembraria aos pais sua feliz adolescência rebelde.
Minha estratégia é perfeita, não é? Bem, eu não vou mudar de profissão tão repentinamente. Mas eu fico curiosa. Será que isto tudo vai se desenvolver sem mim?
*traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas.
Esperanto,
la filmo**
Anna Lietti
jornal "Le Temps",
la 28-an de Aprilo, 2001
C'i-semajne legante la gazeton mi revis dum momento, ke eble mi devus okupig'i pri surmerkatigo. La informo estis en 24 Heures ["24 horoj", Lauzana c'iutaga gazeto, noto de trad.]: Esperanto, baldau' instruota en Lernej-Klubo Migros, estas, lau' tiu informo, la dua lingvo de la planedo Interreto. Tiu aserto eble tro optimismas, sed estas certe, ke la retdiskuta kulturo havigis novan junecon al la "universala lingvo" de d-ro Zamenhof.
Mi ne scias, c'u mi favoras la ideon alpreni Esperanton anstatau' la angla kiel tutplanedan lingvan komunikilon. Sed ege plac'us al mi koncepti g'ian surmerkatigan strategion. La produkto ja estas bonega, kaj sufic'us eta helpa pus'o por lanc'i g'in supren.
Unua atuto : Esperanto havas fondan miton kun heroo, kiun amasoj ja povas adori: Ludoviko Lazaro Zamenhof, juna (kaj bela, kial ne?, ni ne c'ikanu) pola kuracisto, kreskinta meze de etnonaciismaj diss'iroj fine de la pasinta jarcento kaj akus'into de utopio pri komuna lingvo, dank’al kiu, finfine, la popoloj komprenus unu la alian. Oni diras, ke la Holivudaj filmistoj pene serc'adas temojn. C'u c'i tiu ne estas perfekta por kostuma Oskar? Mia unua gesto surmerkatiga estus vendi la film-ideon en la Losang'elesa c'irkau'aj'o.
Dua atuto : Esperanto estas la ideala lingvo por tiuj, kiuj batalis en Seattle, kaj iliaj samcelanoj. Se tiuj g'in alprenos, milionoj da homoj, kiuj kontrau'as la ekonomian tutmondigon, havos la impreson, ke ili plenumas agon de rezistado simple dirante “salon, mi petas”. Kaj tute certe, ili interkomprenig'os de unu ekstremaj'o de la planedo al alia, c'ar Esperanto estas same tutmonda kiel la angla. La diferenco estas, ke g'i estas tutmonda neu'trale, ne imperiisme.
Kompreneble, la triamondistoj tuj rimarkigos, ke tiu lingvo lau'dire universala havas sonojn kaj aspekton akre eu'ropajn. La rusaj kaj japanaj esperantistoj rebatos, ke, c'iaokaze, ili devas, por aliri la tutmondon, lerni la latinan alfabeton kaj ke, koncerne la prononcon, Esperanto estas en sama rilato al la angla kiel infana rondodanco al la mezepoka radotorturo. Mia surmarketiga strategio do inkluzivus Esperanto-kurson al José Bové.
Tria atuto: la lingvo de Ludoviko Lazaro estas ege facile kaj rapide lernebla. Forestas grekdevena mensturmenta ortografio, komplikaj konjugacioj, esceptoj al reguloj: g'i karakterizig'as per kristala ortografio kaj regula sintakso, kies bazoj asimileblas en ne pli ol dek horoj. Kiu povus prezenti ion pli bonan? G'i havas c'ion por delogi multajn el la lernejanoj, kiujn mi konas. Sufic'us ilin informi.
C'u mi au'das vin diri: “Ni do batalu por instruigi Esperanton en la lernejoj”? Ne, ne, miloble ne! Tio estus c'ion fiaskigi! Esperanto devus esti esence eksterlerneja lingvo, lingvo alternativa, stratbubac'a, infana lingvo kontrau'gepatra. Kaj, kompreneble, post dudek jaroj, la lingvo, kiu memorigos la gepatrojn pri ties g'oja ribela junag'o.
Mia strategio estas sendifekta, c'u ne? Sed, nu, mi ne s'ang'os tiel abrupte mian profesion. Mi tamen scivolas. C'u c'io c'i disvolvig'os sen mi?
**esperantigita kaj afable disponigita de Claude Piron.
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