Esperanto debatido em Congresso
Mundial
Socorro Acioli
Especial para O POVO*
Durante uma semana, 1.212 pessoas de 55 países conversaram em
esperanto,
na cidade de Tel Aviv, Israel, sobre cultura, política, educação,
medicina,
matemática, filosofia, línguas e culturas árabe
e hebraica.
A mesma semana em que foram encerradas as negociações
entre as autoridades
israelenses e palestinas em Camp David, nos Estados Unidos a cidade
de Tel Aviv,
em Israel, sediou o 85° Congresso Mundial de esperanto, de 25 de
julho a 01 de
agosto, com o tema Língua e Cultura de Paz.
O esperanto, uma língua artificial criada em 1887 pelo médico
polonês Lázaro
Zamenhof, tem o objetivo de superar as barreiras lingüísticas
que separam os povos.
O idioma foi reconhecida pela Unesco como instrumento de cooperação
internacional no campo da educação, ciência e cultura.
A abertura do 85° Congresso
aconteceu no dia 26 de julho de 2000, exatamente 113 anos após
o lançamento
oficial do esperanto.
Durante uma semana, 1.212 pessoas de 55 países conversaram em
esperanto sobre
projetos de paz e progresso para o mundo reunidos em conferência
sobre cultura
política, educação, medicina, matemática,
filosofia, língua e cultura árabe, língua e
cultura hebraica, ensino do esperanto, economia e comércio,
jornalismo, música,
teatro, cristianismo entre outros temas. Foram também apresentados
palestras sobre
a situação política e o movimento esperantista
nas Américas, Europa, Ásia, África e
Oceania.
No estande africano, o coordenador Gbeglo Koffi oferecia aos congressistas
a
oportunidade de enviar cartões postais aos integrantes do movimento
esperantista da
África do Sul que não poderam estar no congresso. No
estande brasileiro, foram
expostos vários livros, catálogos e peças de artesanato
do Brasil, inclusive as
famosas garrafas de areia coloridas do Ceará.
Uma das conferências mais disputadas no congresso de esperanto
foi a de língua e
cultura hebraica, ministrada pelo professor e tradutor israelense Eldad
Salzman. Até
o final do ano passado, o idioma hebraico teve seu uso restrito a rezas
e orações por
ser considerado o santo idioma do Antigo Testamento.
O lingüista lituano Eliézer Ben Yehuda (1858-1922) pesquisou
o idioma e fez com
que o hebraico voltasse a ser usado novamente em Jerusalém,
tornando-se até hoje a
língua oficial de Israel.
A tática principal de Ben Yehuda foi educar o filho, Itamar Ben
Yehuda em hebraico.
A mesma estratégia está sendo usada pelos esperantistas.
No período do 85°
Congresso Mundial de esperanto ocorre também o Congresso Infantil,
onde os
pequenos esperantistas convivem com crianças de todos os lugares
do mundo e
aprendem novas culturas usando o esperanto.
Outra atração do Congresso era a livraria, com centenas
de títulos da literatura
mundial traduzidos para o esperanto além de dicionários
e livros didáticos para
crianças e adultos.
O esperanto é um idioma muito difundido e bem aceito em Israel.
Durante o evento, a
bandeira do esperanto, cujo símbolo é uma estrela verde,
foi hasteada ao lado da
bandeira do Estado de Israel em uma das principais avenidas de Tel
Aviv, a
Hayarkon. Em muitas cidades do país, inclusive em Tel Aviv,
existem ruas com o
nome do criador da língua, Lázaro Zamenhof, que era judeu.
O texto de abertura do livro do Congresso de esperanto, é de
autoria do ministro
Shimon Peres, prêmio Nobel da paz.
O ministro saúda os esperantistas lembrando o trecho do livro
do Gênesis, do Antigo
Testamento, sobre a Torre de Babel. Segundo o livro, Deus dá
aos homens uma só
língua para que unidos, possam progredir. Mas ao ver a ambição
dos homens que
contruiam uma torre (a Torre de Babel) para chegar aos céus,
castiga-os
confundindo sua linguagem para que não mais possam se entender.
Shimon Perez
diz que esse castigo pode ser amenizado e que sonha com o dia em que
possam
todos entender e escutar uns aos outros, independente de língua
e de credo.
Um delegação de 27 esperantistas representando os cinco
continentes foi convidada
a participar de uma audiência com a vice-presidente do Knesset,
o parlamento
israelense, Naomi Chazan.
Franceses, sul-africanos, israelenses, japoneses, chineses, espanhóis
e brasileiros
sentaram em uma das salas de votação do Knesset para
conversar sobre a proposta
de paz falando uma única língua, o esperanto.
O Brasil foi representado nesse encontro pelo paulista James Piton,
e pelos cearenses
José Marcos Martins, professor de esperanto e Socorro Acioli,
que escreve essa
reportagem.
Durante o encontro, Naomi Chazan agradeceu aos esperantistas pela escolha
de
Israel como sede do Congresso Mundial, apesar do tenso período
de negociações em
que se encontra o país. Naomi ressaltou ainda a importância
do uso de uma língua
neutra, lembrando que a fonte dos problemas entre os povos árabes
e israelenses
muitas vezes está na incompreensão da linguagem.
Socorro Acioli é estudante de Comunicação
da Universidade Federal do Ceará e membro do Comitê de
Organização do 87° Congresso Mundial
de Esperanto em Fortaleza
Fortaleza será sede em 2002
O próximo Congresso Mundial de Esperanto ocorrerá em Zagreb,
na Croácia, de 28
de julho a 1° de agosto de 2001. Mas em 2002, Fortaleza será
a sede do encontro
anual de esperantistas.
A escolha da sede dos congressos é feita pela Associação
Universal de Esperanto,
que examina as condições das cidades inscritas e escolhe
a que oferecer melhores
serviços e estrutura para promover o evento. O diretor geral
da Associação, o
finlandês Osmo Buller, veio a Fortaleza realizar a inspeção
e voltou com um
excelente relatório sobre a cidade. A vitória de Fortaleza
foi anunciada em agosto do
ano passado, no 84° congresso, ocorrido em Berlim.
A previsão é de que mais de 2000 esperantistas participem
desse congresso, que
será o segundo Congresso Mundial de Esperanto realizado no Brasil.
O primeiro
aconteceu em Brasília em 1981. Desde o anúncio da escolha
de Fortaleza como sede
do congresso, a Associação Cearense de Esperanto vem
trabalhando na organização
do evento. (SA)
* Artigo publicado em 06.08.2000 no jornal O POVO, de Fortaleza-CE
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