Retratos de mulheres sem fronteiras*
Serviço de Imprensa, Pesquisa e Documentação
SAT-Amikaro
Paris, França
Do sonho à esperança
A mulher teve seu lugar nas mais belas páginas
de uma história grandiosa, apesar de desconhecida. Não é
exagero dizer que de uma história de amor nasceu um dia uma nova
língua.
Essa língua, cuja vocação é
permitir uma melhor comunicação lingüística entre
todos os povos da Terra e favorecer a compreensão entre eles, germinou
no coração e no espírito de um menino chamado Ludwik
Lejzer (Luís Lázaro) Zamenhof.
A primeira mulher a quem Luís contou sua
intenção de propor uma ligação lingüística
comum para toda a humanidade foi sua mãe, Rosalia
Zamenhof.
Se a princípio ficou sensibilizada por uma
idéia tão nobre, ainda que à primeira vista ingênua,
Rosalia se espantou e se inquietou com a determinação que
seu menino - além de tudo, brilhante em seus estudos - demonstrou.
Ela se tornou enfim, apesar da hostilidade do pai, a confidente discreta.
Não lhe restava dúvidas que Luís estaria ligado a
esse ideal por toda a vida, até o último suspiro.
Luís contou com uma nova cumplicidade feminina
em 1887, quando se casou com Klara Silbernik:
ela se casou com o homem e com a idéia. Ele tinha 28 anos, ela 24.
Eles noivaram em 30 de março. O primeiro manual da Língua
Internacional apareceu em russo, em 26 de julho, sob o pseudônimo
Doktoro
Esperanto. O casamento mesmo aconteceu alguns dias depois, em 9 de
agosto. O esperanto deu portanto seus primeiros passos ao ritmo de dois
corações que batiam em uníssono, com o brilho de dois
olhares embelezados pelo amor.
Da mesma forma como a língua que mais tarde
se popularizou sob o nome esperanto, o casal resistiu a inúmeras
dificuldades e às provas do tempo... Klara trouxe ainda muito mais
que um dote: um sogro de uma generosidade a toda prova, absolutamente aberto
às idéias de seu genro. Graças a seu apoio financeiro
o primeiro manual de esperanto pôde ser editado.
O destino de seus três filhos foi ligado também
ao esperanto. Sua filha Lydia deu conferências
e cursos em muitos países. Eles conheceram um fim trágico,
vítimas da barbárie nazista. Lydia e Sofia
morreram no campo de concentração de Treblinka. O filho Adam
foi fuzilado na ala de oftalmologia que ele dirigia no hospital de Varsóvia;
sua esposa Wanda conseguiu escapar com seu
filho Louis-Cristophe.
Da esperança à realidade
Jornalista, escritora, militante pela Europa e pelos
direitos da mulher, Louise Weiss traçou
em um de seus livros (Une petite fille du siècle) o retrato
de seu extraordinário avô, Émile Javal.
Grande amigo de Zamenhof, oftalmologista como ele,
Javal perdeu a visão aos 62 anos e começou a praticar o esperanto
aos 65. Essa foi a última paixão e objeto de interesse desse
homem extraordinário, o último clarão reconfortante
de sua vida. Ele escreveu então Entre Cegos, uma obra cheia
de filosofia prática e serena, destinada às pessoas atingidas
pela cegueira, para lhes dar os meios, a força de superar sua provação.
Para assegurar uma difusão sem fronteiras, sua neta o traduziu em
esperanto (Inter blinduloj).
Professora de ortofonia, Jeanne
Ranfaing-Zabilon d'Her (pseudônimo em esperanto: Evidino =
descendente de Eva) aprendeu esperanto em 1895 e o ensinou a Hélène
Giroud. Sua incansável atividade e devoção a serviço
dos deficientes, especialmente os surdos-mudos, gagos e cegos, lhe valeram
em 1902 um prêmio do Touring Club da França.
Professora em uma escola de cegos na Suíça,
Hélène
Giroud tornou-se a primeira professora de esperanto do mundo (ano
letivo 1895-96). Ela o aprendeu oralmente, sem livros, e depois o ensinou
a seus melhores alunos e continou por muitos anos a informar e a formar
cegos nessa prática da comunicção. Ela escreveu também
um pequeno livro em braile.
Escritora e poetisa, a rainha
Elisabete da Romênia (pseudônimo: Carmen Sylva) permitiu
a tradução de suas obras em esperanto. Ela instituiu cursos
na Cidade dos Cegos Vatra Luminoasa, de renome mundial, que ela
fundou e que a tornou conhecida em seu país como a "mãe dos
cegos". Ela própria aprendeu o esperanto, e mereceu o título
de "Rainha Esperantista".
Surda-muda e cega, a norte-america Helen
Keller tornou-se nada menos que pedagoga, escritora e militante
social, depois de seguir o curso superior à força de muita
vontade e perseverança. Ela defendia o esperanto como meio de melhorar
o destino dos cegos, de tirá-los de seu isolamento. E foi a esperantista
Clara
Barton quem fundou a Cruz Vermelha dos Estados Unidos.
Pioneiras sem fronteiras
Uma das obras brilhantemente traduzidas do polonês
para o esperanto por Zamenhof foi Marta, de Eliza Orzseszko. Esse
romance, cuja tradução foi publicada em 1910, destaca a cruel
injustiça e a indiferença da sociedade em face a uma mulher
subitamente desprovida e só com sua filha após a morte do
marido. Traduzido em seguida para o japonês, esse livro favoreceu
uma tomada de consciência e o contato entre mulheres ocidentais e
japonesas.
O valor emancipador da Língua Internacional
já havia sido demonstrado por ocasião do III Congresso Universal
de Esperanto em Cambridge, 1907, e depois em Dresden, em 1908, através
de trocas diretas de informações e de experiências
sobre a condição feminina e as questões sociais em
diversos países, o direito ao voto feminino etc.
Kazimira Bujwida foi
não só uma pioneira dos direitos da mulher, mas também
uma fiel colaboradora da ação pró-esperanto de seu
marido, o célebre bacteriologista Odo Bujwid.
Alice Roux,
professora de alemão, fez Gabriel Chavet descobrir o esperanto.
Ele, aos 17 anos (1897) fundou em Louhans o primeiro clube escolar de esperanto
na França.
Um filme rodado há
alguns anos na China retrata o destino da esperantista japonesa Hasegawa
Teru (pseudônimo Verda Majo,
ou seja, Maio Verde), que deixou seu país em 1937 para acompanhar
seu marido chinês na luta contra a agressão nipônica
à China.
Rainha das estrelas de Hollywood
em 1939, Norma Shearer
exprimia sua opinião bastante clara a respeito da questão
da comunicação e manifestava sua simpatia pelo esperanto.
Tia de George Orwell, Ellen
Kate Limouzin foi durante alguns anos companheira
de Lanti, o fundador da SAT, o braço social do movimento esperantista.
Seria injusto não mencionar
Marjorie
Boulton, professora da Universidade de Oxford,
pelo seu notável trabalho biográfico Zamenhof, Creator
of Esperanto (Londres, 1960), bem como sua obra literária e
poética em esperanto, que ela também ensina.
Sem a sensibilidade e a intuição
femininas, o esperanto não teria jamais superado as provas que atravessou.
Apenas a inteligência fria e lógica jamais foram suficientes
para dar vida a uma língua artificial no sentido original e nobre
da palavra latina artificialis: feita com arte.
Talento e coração
Primeira poetisa do esperanto, a alemã Maria Hankel foi em 1912 também a primeira presidente da Esperantista Literatura Asocio. Quatro anos depois de seus primeiros passos no esperanto, em Barcelona (1909) ela foi eleita Rainha dos Jogos Florais Internacionais (concurso literário) por seu poema Simbolo de Amo (Símbolo de Amor).
Muitas outras escritoras participaram mais ou menos intensamente no impulso do esperanto, como as polonesas Irena Krywicka, que como Pola Gojawiczynska, tinha conhecimentos básicos, e Janina Porazinska, especialista em literatura infantil, a ucraniana Oleska Slisarenko, a delegada romena na Liga das Nações Helena Vacaresco, a austríaca Bertha von Suttner (Nobel da Paz, 1905) ou a sueca Selma Lagerlöf (Nobel de Literatura, 1909).
Esposa do fundador do escotismo, Olave Baden-Powell sugeriu que a esposa do presidente dos EUA, Eleonora Roosevelt, presidente do Comitê de Direitos Humanos da ONU, interviesse para que seu país fizesse o mundo inteiro aceitar a introdução do esperanto no programa de todas as escolas e organizações. Embora seu pedido não tenha sido bem sucedido, ao menos ajudou a pavimentar o caminho até o reconhecimento oficial do Esperanto pela UNESCO, que adotou recomendações em seu favor em 1954 e em 1985, e abrigou sua aplicação no projeto Linguapax em 1993.
Muitas uniões e famílias têm o esperanto como origem. Além do casal Zamenhof-Silbernik, houve aindas inúmeros casamentos entre esperantistas, na maioria de nacionalidades diferentes. Em 1899 o sueco Valdemar Langlet casou-se com a finlandesa Signe Blomberg. Após a morte dela, em 1921, ele se casou novamente em 1925, com a russa Nina Borovko. Todos os três, esperantistas.
Mutchul Mossover se tornou em 1916 esposa do prince baha'i persa Bahman Shidani, que, em 1914, também havia aprendido a Língua Internacional.
A sueca Karin Höjer, cega desde criança, se casou em 1919 com Harald Thilander, cego desde os treze anos, depois de mais de vinte anos de colaboração com ele em favor do esperanto. Ela morreu em 1927. Ele se casou de novo em 1928 com Varma Jäärvenpä, uma esperantista finlandesa que conseguiu em parte recuperar sua visão novamente. Varma, em esperanto, curiosamente significa "quente", "caloroso/a"...
Mil mulheres, mil destinos
A história do esperanto é pontilhada de uma multidão de retratos de mulheres espantosas e admiráveis que mereceriam um livro dedicado só a elas.
Elas tiveram mesmo um papel decisivo para o sucesso da Língua Internacional do doutor Zamenhof, em comparação às centenas de tentativas de criação de línguas internacionais concebidas com fins exclusivamente utilitários ou sobre bases totalmente errôneas (o que confirma o eminente professor Umberto Eco em seu livro sobre a busca da língua perfeita). Por conseguinte, os outros projetos são desprovidos de alma e de valor cultural.
Portador de uma mensagem de igualdade, de fraternidade, de idéias emancipadoras e humanistas, um instrumento prático e eficiente para torná-las efetivas, o Esperanto foi por muito tempo e ainda é vítima de uma política tendendo a mantê-lo, assim como a mulher, em um estado de inferioridade, através do escárnio, da detração, da humilhação, de pressões ou do silêncio. Cabe pensar que as vitórias sociais da mulher serão vitórias para o esperanto, e vice-versa.
Defintivamente, o espírito que move o Esperanto - a interna ideo ou idéia interna - não é estranho às qualidades das duas mulheres que mais o marcaram, inspiraram e ajudaram Luís Lázaro Zamenhof: Rosalia e Klara.
Inúmeras são as mulheres que hoje se dedicam a fazer avançar esse ideal. Este modesto estudo, realmente muito curto, é dedicado a elas.
Bibliografia
Historio de Esperanto - Adam Zakrzewski
Enciklopedio de Esperanto - Literatura Mondo, Budapest
Le Docteur Esperanto - Maria Ziolkowska
Zamenhof - Marjorie Boulton
L'Espéranto - Pierre Janton
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