O Esperanto contra a Babel
do Desamor
Affonso Romano de Sant'Anna
Artigo publicado na sua coluna do Caderno
B, no JORNAL DO BRASIL de 17/07/85. Gentilmente cedido pelo autor
e indicado ao KCE por Fernando Marinho.
Falar uma língua estrangeira é romper uma fronteira. Falar muitas é romper várias. Falar o Esperanto é querer romper todas de uma vez.
E enquanto estamos aqui no ti-ti-ti doméstico e no blá-blá-blá de nossas mazelas provincianas e nacionais, centenas de pessoas começam a se reunir hoje, em Belo Horizonte, no 21o. Congresso Brasileiro de Esperanto. Para ali foram aqueles que crêem que grande parte dos males da humanidade advém dessa Torre de Babel em que vivemos. E que se falássemos uma outra língua, um idioma universal, sem dono, seríamos menos estranhos e estrangeiros e estaríamos mais perto da felicidade.
Todo esperantista me comove. Mesmo porque ser filho de um esperantista não é uma experiência que se possa esquecer. E, se eu fosse um filho zeloso, como manda a Bíblia, deveria era estar ali em Belo Horizonte engrossando aquele coro de querubins, que anseiam pela harmonia lingüistica aqui na Terra. E para quem não sabe adianto logo: o Esperanto foi criado por um judeu polonês em 1887. É uma língua com menos de 20 regras , sem exceções e para ela já estão traduzidas muitas das grandes obras literárias. E, no Esperanto o que me seduz não é só o fato lingüístico, mas o fato social. É que a essa língua se dedicam pessoas que ainda têm uma candura e um idealismo comovedores. Não é uma língua de assassinos, especuladores e armamentistas. Me lembro de meu pai* correspondendo-se com o mundo todo. Diariamente chegavam aquelas cartas com aqueles selos mágicos da China, Coréia, Madagascar , Rumênia, Austrália, etc. E os esperantistas trocando afetos e presentes. Me lembro de meu pai mandando, durante a guerra, alguns pneus de bicicletas para esperantistas holandeses, porque não havia borracha disponível na Europa e porque, mesmo apesar da guerra meu pai acreditava no correio holandês. E os pneus chegavam, e chegava o café e toda sorte de socorro. Pequenos sinais de amor entre pessoas que só se conheciam através da língua criada por Zamenhof.
Falei que o criador do Esperanto foi um judeu polonês. E isto explica que seja um gesto utópico de revolta contra a opressão. Que só um oprimido, constrangido a não falar sua língua e espremido entre a Rússia e a Prússia, poderia ter esse gesto. E agora imaginem o drama de Zamenhof, ao saber que seu próprio pai, como um Jeová todo poderoso, havia destruído a gramática que ele escreveu. Imaginem o desespero adolescente do jovem tendo que reconstruir tijolo por tijolo a torre lingüística, pela qual ele queria acabar com a Babel maldita. Há, aliás, nesse episódio algo que nos deixa intrigado com Jeová. Porque o cap. 11 de Gênesis diz que no princípio só havia uma língua no mundo e por causa disto os homens se encontraram numa planície e começaram a construir uma torre para chegar aos céus. Com isto, Deus se assustou, porque "o povo é um , e todos têm a mesma linguagem "agora não haverá restrição para tudo que intentem fazer". Deus ficou com ciúme e disse: "Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem outro". Como se vê, o mito bíblico repete o mito de Prometeu , pois Zeus castigou Prometeu por lhe ter roubado o fogo, que era sinônimo de poder. Isto prova que a gente tem que tomar muito cuidado com os deuses. As mitologias provam que eles gostam muito da gente, desde que não se queira concorrer com eles. Isto é uma tremenda injustiça, porque, que eles queiram ser deuses, tudo bem, agora condenar a gente a ser sempre esses pobres mortais, é demais.
Por isto, pouco importa que um ou outro gramático faça essa ou aquela restrição ao Esperanto. Essa língua, mais que um artefato de vogais e consoantes, é um acontecimento social e psicológico. Ela muda a vida das pessoas e as torna melhores, como me relata a leitora esperantista Isabel Santiago**. Como vocês sabem, os nazistas arrasaram a cidade de Lídice na Europa. E imediatamente, em várias partes do mundo, homens livres batizaram cidades emergentes com o nome de Lídice. Pois, quando comemoraram os 40 anos da destruição de Lídice os adolescentes da Tchecoslováquia, através do Esperanto, realizaram uma exposição sobre todas as Lídices que brotaram no mundo, inclusive aqui, no Estado do Rio.
É isso: os deuses zangados confundem
os homens e os ditadores destroem as cidades. Mas os idealistas procuram
uma língua que nos resgate a todos.
Nota:
* Jorge Firmino de Sant'Anna, esperantista em Juiz
de Fora
** Isabel Santiago, atualmente em Rotterdam-Holanda, é autora
do livro "O Que é Esperanto?", Col. Primeiros Passos,
Ed. Brasiliense.
artigo anterior |
diversas perguntas |
próximo artigo |