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Esperanto, expressão e sentimento
Henri Masson

A partir da pergunta feita por uma leitora, em agosto/98, no fórum eletrônico do jornal "L'Européen", o francês Henri Masson, autor de "L'Homme qui a défié Babel", deu a seguinte resposta, cuja reprodução aqui foi gentilmente permitida.

Pergunta: Como não-esperantista, gostaria de destacar o seguinte ponto: vocês falam de facilidade, simplicidade, de rapidez quando se trata do aprendizado do esperanto. Mas deixo a pergunta: vocês não temem simplificar demais o que nós expressamos através de todas as nuances do inglês ou das outras línguas? São essas nuances, tidas como dificuldades gramaticais, que fazem a riqueza de nossas línguas. Se optarmos por uma única língua, simplificada ao extremo, não vai ser difícil de se exprimir o que realmente sentimos? Não correremos o risco de transmitir um pensamento "padronizado"?

Em primeiro lugar, é importante dizer que o esperanto jamais pretendeu ser a "única língua" e que ela não é uma "língua simplificada ao extremo". Esta simplificação limita-se àquilo que não é essencial à expressão, à transmissão, à percepção, à compreensão do pensamento. Ela não conduz, de modo algum, à simplificação da idéia. Como qualquer outra língua, o Esperanto permite tratar assuntos muito complexos. Eu não acho que o meu uso do francês e o meu estilo sejam afetados por saber Esperanto. Pelo contrário, às vezes o Esperanto me dá uma indicação, uma referência, uma flexibilidade maior. As línguas são trilhas semeadas de cascas de banana. Como a expressão pode ser prejudicada, se finalmente é possível olhar para algum outro lugar além do chão, e finalmente admirar a paisagem?

Professor da London College University, renomado especialista da fonologia inglesa e autor de uma obra monumental intitulada "The Accents of English", John C. Wells disse, a respeito do inglês, durante uma conferência em Esperanto no Centro Pompidou (Paris) em1987: "Chomsky e seus colegas conseguiram compilar um conjunto de regras extremamente complicadas que, com cinco regras principais e quarenta categorias de exceção e cento e vinte categorias de exceções às exceções, permite determinar corretamente a posição do acento nas palavras do inglês". Poliglota (inglês, galês, francês, alemão, grego - antigo e moderno - italiano, latim) e esperantista brilhante (autor, dentre outros, de um dicionário de Esperanto na célebre coleção "Teach Yourself"), John Wells pode portanto comparar e julgar. Ele se inclina mais ao esperanto que ao inglês para o papel de língua de comunicação internacional. Basta ver seu sítio na Internet.

Não se trata, de modo algum, de optar por uma única língua, mas de permitir a todo mundo um denominador lingüístico comum a partir do qual cada um pode então escolher livremente se vai aprender uma ou mais línguas. Difícil demais para a maioria dos alunos (as estatísticas falam por si sós -veja-se o relatório n° 73 do Senado Francês [95-96], chamado "Relatório Legendre"), o inglês não é apenas uma língua de bloqueio, de inibição, mas também de alienação. Nada disso vai se produzir com uma língua de acesso mais fácil e livre de ligação com qualquer potência que seja. "O fato que nenhuma potência política ou econômica apóie o Esperanto não é uma fraqueza, mas uma chance para o futuro". Esta conclusão do diário austríaco "Standard" (24/03/98) não deveria estimular uma reflexão mais profunda?

Já que o franco, o marco alemão ou a libra esterlina foram rejeitados para o papel de moeda única européia, como admitir o estatuto de língua única para o qual se empurra discreta ou abertamente o inglês? Língua, aliás, por trás da qual se acham potências cujos interesses divergem dos países não-anglófonos da União Européia e, mais ainda, do mundo inteiro. A construção da Europa esbarra em inúmeros problemas lingüísticos, que já constituem um problema mundial. É infinitamente mais grave.

Para julgar sobre fatos, e não boatos, por que o "L'Européen" não enviou um jornalista ao Congresso Mundial de Esperanto, em Montpellier (França), onde neste verão (1998) 3.133 participantes de 66 países - e dezenas de zonas lingüísticas - puderam se entender , sem intérpretes, à qualquer hora e em qualquer lugar? Era o momento de se ver onde está o verdadeiro e o falso, de comparar esse sistema com o sistema dos deputados e instituições européias que patinam com apenas onze línguas oficiais. No próximo ano será mais distante e certamente mais caro: Berlim. No ano 2000 em Tel-Aviv, em 2001 em Zagreb.

Como o tema do presente debate se refere mais às línguas estrangeiras nas empresas européias, eu posso dizer que um dos estandes mais visitados em Montpellier foi o da TAKE-Esperanto (associação mundial de esperantistas profissionais da construção e obras públicas) e do IKEF (grupo comercial e econômico) que visam a promoção do Esperanto a serviço da economia, do comércio e das empresas.

É preciso se render às evidências: o Esperanto passou do estágio de sonho. Que meio de comunicação contou, por exemplo, que o novo presidente da Associação Universal de Esperanto (Rotterdam, Holanda) é o antigo Procurador-Geral e Ministro da Justiça da Austrália, Kep Enderby, que sucedeu Lee Chong-Yeong, professor de economia em Seul, que por sua vez foi precedido por John Wells? Tenta-se passar a idéia de que os falantes de Esperanto são pessoas ingênuas, sem saber que essa língua é operacional em um número crescente de setores e de países. As pessoas emitem uma opinião definitiva sobre o Esperanto a priori, a partir de boatos, sem mesmo ter estudado o assunto, o que elas jamais ousariam fazer sobre outros temas: elas confessariam humildemente nada saber. Quantos leitores do "L'Européen" sabem que Bill Gates disse, por ocasião da Comdex 1995: "A Internet é apenas uma moda, nós não vamos cair nessa"? Eis um homem cujo pensamento deu uma enorme guinada em pouquíssimo tempo!

Muitas questões relativas a diversos aspectos do Esperanto encontram uma resposta em mais de trinta línguas no sítio http://www.esperanto.net [ou diretamente em português: http://www.aleph.com.br/kce e http://www.brnet.com.br/bel/bel].

Quanto a expressão e sentimento, há em Esperanto uma notável brochura intitulada "Esprimo de sentoj en Esperanto", da década de 30, cujo autor (Edmond Privat) foi professor de inglês na Universidade de Neuchâtel. É uma leitura recomendada até para os principiantes, antes de se atirar ao "Retoriko", obra magistral do professor croata Ivo Lapenna, um eminente especialista de Direito Internacional em Londres.

O Esperanto não parou de se enriquecer e não é de hoje que ele permite exprimir sentimentos. É preciso dizer que contatos entre homens e mulheres de nacionalidades e línguas diferentes, durante congressos de Esperanto e outras ocasiões, acabaram em casamento? A primeira vez foi em 1899 entre um sueco e uma finlandesa. Pelo que sei, a última vez que Cupido agiu foi em Wuhan, a grande cidade chinesa hoje ameaçada pelas inundações. A flechada atravessou os corações de um voluntário holandês da organização britânica Volunteer Service Overseas (OVS) e de uma chinesa. No alvo! Eles se casaram neste mês de agosto.

(tradução: James Rezende Piton)


 
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