Boca Livre: qual língua para
o mundo?
Prof. José J. Lunazzi
Físico e professor universitário argentino, Lunazzi aprendeu esperanto há poucos anos. Segundo ele próprio desde então suas viagens internacionais pela França, Bélgica, Hungria, Estados Unidos, China, Coréia e Japão ganharam uma nova dimensão: a do contato direto com simples moradores desses países. O texto foi escrito para o jornal "Boca Livre" de Campinas, com circulação gratuita no distrito de Barão Geraldo (onde se localiza a UNICAMP e Lunazzi é morador há mais de 20 anos).
"Boca Livre"... Quer dizer liberdade de expressão? Mas nós não temos já liberdade de expressão, democracia? Existem temas proibidos? Sobre que trata o "Boca Livre"? Sobre Barão Geraldo ou sobre a liberdade de expressão? Sobre coisas locais ou sobre coisas universais? Li sobre temas de física, que valem em Barão e no universo todo. Então concluo: pelo "Boca Livre" pode-se falar sobre Barão, mas também sobre o que Barão sabe ou pensa do mundo. Por outro lado, "Boca Livre" pode significar o oposto de "Rabo Preso".
Com isto vou me orientando para o tema que quero expor: democracia e língua internacional. Mas vale a pena tratar sobre temas utópicos?. Pois para nós, habitantes de Barão Geraldo ou da América Latina, democracia é pura utopia.
Basta ver que um dos países com maior tradição democrática, a Argentina, está atingindo seu recorde de duração do período democrático: magros 14 anos, atrapalhados pelo peso de uma dívida externa que triplicou ao longo da última ditadura. Costa Rica talvez seja a exeção. Já pensou a eletricidade em sua casa funcionar durante algumas horas no dia, outras não, e ter de pagar mais caro pelo tempo em que não a usou? Nos EUA e na França, nos últimos dois séculos, a democracia somente foi interrompida pela guerra, a grande massacradora de democracias, deixando intervalos de 22-52 anos até a proxima hecatombe. Mas democracia é uma daquelas palavras muito amplas, como amor, Deus, Pátria, que podem significar muito, ou nada, dependendo da idéia que cada um de nós faça delas. Para mim quer dizer igualdade de oportunidades, de direitos, de deveres. Ela foi criada na Grécia Antiga, há mais de 2.000 anos, para uma classe social que escravizava outras. Ou seja, não nasceu ampla e universal. E como permanece hoje?
Já citei dois dos países onde a estrutura interna mais tende à igualdade de oportunidades, de direitos e deveres. Isto é interno, e para fora? Internacionalmente, não tenho dúvidas, continua valendo a lei do mais forte, criada por uma elite, mas influenciada pela sua opinião pública. Vou me centrar num detalhe: a língua das comunicações internacionais. Na historia ocidental parece que uma das mais antigas foi o lusitano, depois veio o Império Romano e obrigou a usar o latim, mais tarde as legiões de Napoleão obrigaram a usar o francês, que ficou forte até a Segunda Guerra Mundial. E assim seguimos, deixando que o mais forte imponha sua língua, o que vai contra a igualdade de oportunidades. Pois não deveria acontecer que uma pessoa que passou no mínimo quinze anos de sua vida usando e aprendendo a língua de seus pais e de seu país, venha a dizer a outra, que não nasceu nem cresceu usando essa língua: - "Não entendo você" , "Você não sabe se expressar" , "Como você não consegue acompanhar as conversas nessa reunião?" , "Essa piada você não conhecia? Pois está na última moda". Pior ainda é quando o interlocutor cala por timidez ou sequer percebe quanto exatamente está deixando de entender.
Pode-se argumentar: "Bem, mas alguma teria de ser a escolhida, o processo é natural". Não posso concordar por dois motivos: porque a lei do mais forte, sendo natural, faz a humanidade retroceder, e porque uma boa solução existe. Depois de séculos de muitas tentativas de se obter soluções racionais baseadas somente em alguns belos princípios, aparece no fim do século passado uma língua construída que atinge sucesso parcial: o volapük, que subsiste ainda hoje em alguns redutos. Aprendendo com os erros das anteriores, e vendo a funcionalidade da hibridação (lembremos a língua moderna dos judeus, o swahili na África, o tupi-guarani usado por Padre Anchieta, feitos de arranjos e sintese de línguas), Luís Zamenhof cria em 1887 o esperanto. Mesmo incompleto, rapidamente atinge Europa e começa a se espalhar pelo mundo. A língua foi definitivamente consagrada após o primeiro encontro mundial, em Boulogne-sur-mer em 1905, com 688 inscritos. Em 1906 funda-se em Campinas o primeiro centro esperantista do Brasil, por Tobias Leite e João Keating, entre outros pioneiros, que fizeram os primeiros dicionários do país.
A Primeira Guerra Mundial certamente interrompe o crescimento do esperanto que, de todas maneiras, nao cessará jamais. Nem com a morte de muitos adeptos nos campos de concentração da Segunda Guerra ou nos expurgos de Stalin. Existem organizações em todos os países, com pouquíssimas exceções. Calcula-se em dois milhões o número de falantes. Apesar de ocidental, a língua é muito bem aceita na Ásia, pois resulta até 10 vezes mais simples que qualquer língua nacional. Várias religiões a utilizam: católica, bahai, uonbulista, luterana, espírita, mas somente uma, a Oomoto japonesa, a tem como língua oficial. Existem uns 50.000 livros, muitos periódicos e revistas e numerosos boletins, e associações para todo tipo de atuação (arte, xadrez, medicina, ciência, comunismo, filatelia, etc.).
É língua reconhecida pela UNESCO e, dentre as personalidades que a utilizam destaca-se o premio Nobel de Economia de 94 Reinhard Selten. Dentre as que a apoiam, o escritor Umberto Eco, em seu livro "A procura da Língua Perfeita". O primeiro partido político transnacional, o "Radikala Partio", europeu, a usa e trabalha para que seja adotada na União Européia, que gasta fortunas em traduções.
É comum as pessoas acharem o esperanto ser "uma língua morta", ou "a língua que quer substituir as demais". Por vez de obscurecer ou "pasteurizar" as culturas, pelo esperanto é que temos contato direto também com as culturas e países mais esquecidos da mídia. A melhor maneira de viajar pelo mundo é com o esperanto: a pessoa sempre recebe apoio onde quer que for. Tóquio, por exemplo, tem 40 clubes. No aeroporto de Pequim o inglês é língua inútil para se comprar uma passagem nacional, como aconteceu comigo na hora da chegada. Para se conseguir emprego hoje em dia em empresas importantes, conhecer uma segunda língua põe você em vantagem. O que mais posso dizer? Nao adianta gastar muito tempo falando de utopias, verdade? Mas se você for curioso, verá que Campinas tem 5 grupos esperantistas, e pode até haver um em seu bairro. Barão Geraldo tem na UNICAMP. Se tiver acesso à Internet, perceberá mais ainda a necessidade de uma língua simples para uso internacional. Entre em http://www.aleph.com.br/kce e descobrirá o mundo do esperanto. Os cursos pela Internet são gratuitos.
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