"Uma língua assim não
existe"
Começa a trabalhar na Universidade de Amsterdã um professor de interlingüística e esperantologia: o doutor Marc van Oostendorp. Nós o entrevistamos em seu local de trabalho principal, a Universidade de Leiden.
Revista Esperanto - Sua tese de mestrado foi sobre "A sintaxe de uma língua sem gramática". Eu acho que já advinhei de que língua se trata...
Marc van Oostendorp - Sim, sobre o Esperanto. Claro, eu demonstrei que o Esperanto tem uma gramática - e que ela, planejada para ser o mais lógica possível, fez evoluir durante sua história características à primeira vista ilógicas. Mas essas características estão de acordo com os princípios da gramática universal - isto é, as regras que segundo o conceito de Chomsky valem universalmente para todas as línguas. Portanto, numa forma mais abstrata, também essas características são lógicas.
RE - Sua pesquisa confirma então que o Esperanto não difere essencialmente das outras línguas, que sua "artificialidade" não importa?...
MvO - O tema "artificialidade" sempre me interessou. Mas como estudante eu tive que ouvir que nós estudaríamos línguas naturais; então não, por exemplo, a língua de lógica formal ou línguas artificiais como o Esperanto.
RE - Como você reagia a essa limitação?
MvO - Eu pensava: eis um campo de trabalho para mim! Desde os 13 anos eu aprendi Esperanto. Ele ampliou meu interesse pela lingüística - e vice-versa. Para mim o Esperanto e a lingüística sempre tiveram uma forte ligação. Por isso eu não podia aceitar sempre a mesma histórica argumentação dos que ignoram o Esperanto: que uma língua inventada por uma pessoa não pode existir, ou que ela é ainda jovem demais para ser levada a sério. Eu gosto de provocá-los com a idéia: o que aconteceria se um dia descobríssemos que o holandês foi elaborada por alguém no século 13? Nós a acharíamos por isso menos natural. E, de fato, o holandês é de certo modo artificial, porque sem a influência da tradução da Bíblia (algo "artificial"), a língua não exisitiria em sua forma atual. Por outro lado, se nós afirmamos que o Esperanto é natural, o que nos impede de dizer o mesmo do Volapük, da Interlíngua etc; onde estão os limites da naturalidade?
RE - Com a sua experiência: será que o Esperanto desafia os limites de pensamento dos lingüistas?
MvO - Não, pelo menos não os limites em que eu trabalho. Segundo a escola de Chomsky, à qual eu pertenço, uma língua assim de fato não existe; existem falantes de diversos sistemas, cada um de seu próprio, que compreendem uns aos outros em diversos graus.
RE - Você mesmo escreve em Esperanto?
MvO - Eu gostaria de escrever um "descendente" do excelente mas já desatualizado (depois de 20 anos) Lingvistikaj Aspektoj, de John Wells. Seria semelhante ao meu livro Tongval - Hoe klinken Nederlanders? (Dialeto - como soam os holandeses?), no qual eu tentei contar sobre fatos lingüístico de uma forma interessante e popular.
RE - Em abril começa seu curso "Interlingüística e Esperanto" em Amsterdã. Quem vai participar?
MvO - Pode participar qualquer estudante (e, pagando 350 florins, também pessoas de fora), mas provavelmente vão se interessar os estudantes de lingüística e de estudos europeus. Como o objetivo principal não é criar falantes de Esperanto, mas elevar o conhecimento interlingüístico, eu não vou dar um curso da língua, mas um curso de língua: da idéia de língua internacional, da estrutura do Esperanto etc.
RE - Em abril começa seu curso "Interlingüística e Esperanto" em Amsterdã. Quem vai participar?
MvO - Pode participar qualquer estudante (e, pagando 350 florins, também pessoas de fora), mas provavelmente vão se interessar os estudantes de lingüística e de estudos europeus. Como o objetivo principal não é criar falantes de Esperanto, mas elevar o conhecimento interlingüístico, eu não vou dar um curso da língua, mas um curso de língua: da idéia de língua internacional, da estrutura do Esperanto etc.
RE - De acordo com o anúncio do cargo, você também vai "fazer e conduzir pesquisas".
MvO - Sim, eu me interesso pela propedêutica do Esperanto. Eu já contactei Corsetti e Hiroshi sobre sua pesquisa psicolingüística. Mas eu gostaria principalmente de saber como é usado efetivamente o Esperanto. Por isso eu pretendo coletar o Esperanto padrão: primeiro para a língua escrita, mas não numa linguagem trabalhada.
| Marc van Oostendorp
Linguista e fonologista holandês, van Oostendorp (nascido em 1967) bacharelou-se em Leiden (1987), tornou-se mestre (1991) e doutor (1995) em Tilburg. Seus livros, artigos e palestras tocam temas tão distintos como fonologia, política lingüística, poesia e computação. Ele é redator e cuida da página WWW "Onze Taal" (Nossa Língua), revista da associação de mesmo nome, que congrega leigos interessados nas questões de uso da língua holandesa. Ele é co-responsável pelo Projeto "Laurens Jansz. Coster", que pretende disponibilizar gratuitamente pela Internet textos literários sem direitos autorais e explorar as possibilidades de hipertexto para sua apresentação. |
RE - Observaram que você é o mais jovem professor da universidade.
MvO - Este é um mérito muito provisório.
RE - Você é um cientista, não um ativista. São pólos irreconciliáveis?
MvO - Bem, um antagonismo semelhante eu vivo como redator da revisto Onze Taal: a opinião de um lingüista pode desagradar ao leitor purista que "batalha" por um holandês "puro". Surgiu a idéia de se criar uma academia da língua holandesa, mas eu não tenho a ambição de me tornar acadêmico, nem do holandês, nem do Esperanto.
RE - E qual é a sua verdadeira ambição?
MvO - A mesma de todo cientista: receber respostas às minhas perguntas.
* publicado originalmente no número 1097, dezembro de 97, pág. 181, da revista Esperanto, da Associação Universal de Esperanto. Traduzido pelo KCE.
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