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Valdemar Langlet: 
Schindler não estava só*

Em 17 de dezembro de 1997 comemoram-se os 125 anos de nascimento de Valdemar Langlet (1872-1960). Ele e sua mulher Nina não tiveram dúvidas em arriscar suas próprias vidas para ajudar aqueles que estavam à apenas alguns milímetros de uma morte cruel e inevitável.


V. LangletPoucos esperantistas conhecem hoje o nome de Valdemar Langlet, mas na história do Esperanto na Suécia ele é um personagem muito importante. Langlet nasceu em 17 de dezembro de 1872. Ele foi co-fundador do Clube de Esperanto de Uppsala, o segundo clube esperantista no mundo, e durante muitos anos foi seu presidente. Quando foi fundada a Federação Sueca de Esperanto, em 1906, ele tornou-se também seu presidente.

Em 1899 ele se casou com uma esperantista finlandesa. Após a morte da esposa, em 1921 ele conheceu Nina, filha do pioneiro esperantista russo Nikolai Borovko. Em 1925 eles se casaram.

Valdemar Langlet fez várias viagens à Rússia, a primeira já em 1895. A cavalo ele percorreu 1000 km. na Hungria. Sobre suas aventuras ele veio a escrever um livro mais tarde.

Em 1932 Langlet passou a trabalhar como professor de sueco na universidade de Budapeste, ao mesmo tempo em que era funcionário da embaixada sueca na capital da Hungria. Em 1944, quando a Segunda Guerra ameaçava cada vez mais a vida dos húngaros, Langlet ainda trabalhava em suas duas funções. Ele via as perseguições cada vez mais cruéis não apenas contra os judeus, mas também contra outras pessoas que não agradavam ao regime fascista. Com sua mulher Nina ele começou um trabalho de ajuda sob proteção da Cruz Vermelha Sueca. Num primeiro momento ele ajudava principalmente as pessoas que já conhecia. Mas pouco a pouco o grupo cresceu e à sua porta se formavam longas filas de pessoas a pedir ajuda.

A casa de Nina e Valdemar já não era suficiente. Eles alugaram apartamentos, casas, sítios. Pessoas que abandonavam a cidade colocavam suas casas à disposição. Em muitos lugares de Budapeste e nos seus arredores, eles montavam orfanatos e asilos, distribuindo alimentos e remédios. Em alguns desses abrigos, abrigavam-se secretamente, de tempos em tempos, pessoas perseguidas por serem judias ou por serem inconvenientes segundo os critérios dos fascistas húngaros ou dos SS alemães.

No último ano da guerra, milhares e milhares de judeus húngaros eram conduzidos à morte nos campos de concentração alemães. Langlet mantinha relações de amizade com muitas famílias judias, desde os primeiros anos em Budapeste. No começo de 1944, ele percebeu que subitamente alguns conhecidos desapareciam sem deixar sinal. Outros iam procurá-lo às escondidas para contar o grande medo que sentiam de serem presos e levados para algum campo.

Langlet compreendia que era hora de fazer alguma coisa. Através de ações oficiais da embaixada sueca, ele podia ajudar algumas pessoas que mantinha alguma relação com a Suécia. Pelas outras ele nada podia fazer e a situação parecia desesperadora. Embora não tivesse o direito de agir sem o consentimento das autoridades de Estocolmo, ele montou uma seção especial de proteção, primeiro na embaixada, e depois no seu escritório em casa.

A tábua de salvação

Em maio de 1944, Langlet fazia os primeiros "documentos de proteção", que se pareciam com passaportes. Eles continham as mesmas informações que um passaporte comum, mas também a advertência que "o identificado, ligado aos interesses da Suécia, está sob a proteção da Cruz Vermelha Sueca". As autoridades húngara permitiram a emissão de 4.500 desses documentos, mas ninguém sabe quantos documentos Langlet emitiu - talvez 25.000.

Em nome da Cruz Vermelha Sueca ele começou a imprimir documentos em que Langlet garantia que o interessado aguardava a cidadania sueca e por isso estava "sob proteção especial da Suécia". No começo eram apenas alguns documentos por dia, mas aos poucos a informação sobre os documentos de Langlet corria não apenas em Budapeste. Vieram grupos cada vez maiores em busca de ajuda.

A atuação de Langlet ainda era aceita pelas autoridades húngaras. Milhares, talvez dezenas de milhares de documentos já haviam sido distribuídos e o caso parecia não ter mais controle. O embaixador sueco, claro, teve medo. Eles haviam chegado ao ponto em que os documentos pseudo-oficiais de Langlet poderiam perder completamente seu valor. Desse modo, o embaixador pediu a direção da Cruz Vermelha Sueca que fosse enviada ajuda a Budapeste.

Pouco depois Raoul Wallenberg foi enviado a Budapeste, e ele logo aceitou o método de Langlet, mas como representante oficial ele pôde substituir os documentos pelos famosos "passaportes de Wallenberg", emitidos em nome do governo da Suécia.

Valdemar Langlet e Nina continuaram sua ação humanitária mesmo durante o momento caótico da marcha dos exércitos soviéticos em Budapeste. A obra e a sorte de Wallenberg o mundo conhece bem: ele foi capturado pela polícia secreta soviética e só após o fim da União Soviética é que se soube alguma coisa sobre seu paradeiro.

Alguns meses após o fim da guerra, Valdemar, já com mais de setenta anos, e sua mulher voltaram à Suécia, completamente sem recursos, após uma longa e cansativa viagem. Apenas algumas roupas e objetos pessoais eles puderam levar de volta para casa. Todo seu dinheiro fora gasto no trabalho humanitário, e seu estado de saúde era muito precário. No pequeno vilarejo de Lerbo, próximo de Katrineholme, no centro da província de Södermanland, eles viveram vários anos muito modestamente.

Na Hungria, a obra de Valdemar e Nina é bastante conhecida. Em sua homenagem uma escola de Budapeste recebeu o nome Langlet. Na Suécia poucas pessoas sabem hoje quem eles foram, e muito menos de seu heróico e arriscado trabalho em favor das vítimas que sofriam por causa da guerra e do racismo. Wallenberg sumiu nos últimos dias de caos da Segunda Guerra e seu misterioso desaparecimento despertou o interesse do mundo, tornando seu nome conhecido. Valdemar e Nina Langlet merecem o mesmo respeito mundial.


* traduzido e adaptado pelo KCE de um texto de Henry Thomander para a página do Clube de Esperanto de Norrköping, Suécia.

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