Uma Conversa com Dom Miziolek
O esperantista
e Bispo polonês D. Wladislaw Miziolek, em junho de 97, por ocasião
da visita do Papa a Polônia, concedeu a seguinte entrevista à
jornalista Barbara Pietrzak, da redação de Esperanto da Rádio
Polônia:
Rádio Polônia - Quando Vossa Eminência teve o primeiro contacto com esperantistas?
D. Miziolek - A primeira vez em que me encontrei com esperantistas
foi por intermédio do padre Henryk Paruzel, que teve um grande papel
na divulgação dessa língua. Não apenas na Polônia,
mas também na esfera das autoridades católicas esperantistas,
em Roma. O padre Paruzel veio me visitar porque eu, como bispo, comecei
a trabalhar na Comissão de Orientação Espiritual.
Primeiro como vice-presidente - e depois da morte do cardeal Kominek,
como presidente. O padre Paruzel me pedia que eu zelasse pelos esperantistas
e que eu também acompanhasse os esperantistas poloneses ao congresso
católico esperantista que em breve ocorreria em Roma. Tratava-se
do 36. Congresso da IKUE [União Esperantista Católica Internacional],
no ano de 1975. Eu a princípio resisti, porque eu não sabia
a língua, mas o padre Paruzel era uma pessoa encantadora e tão
insistente que eu aceitei. Eu comecei a conhecer o Esperanto, aprendi,
e de fato passei a ajudar os esperantistas católicos na Polônia,
que eram então coordenados pelo padre Paruzel. Eu também
fui ao congresso em Roma, onde celebrei duas santas missas, até
nas Basílicas maiores: na de São Pedro e na de São
João de Laterano. |
R.P. - Pessoas que aprendem Esperanto vêem nesta língua um instrumento de comunicação, compreendem a idéia de aproximação intrínseca à língua. Como o senhor, Bispo, vê isto?
D. M. - Na minha opinião, quando o mundo se torna uno, mais coeso, sente-se a necessidade de uma língua pela qual nos compreenderíamos no mundo inteiro. Me parece que o que se opõe a isso é o orgulho nacional, especialmente das grandes potências cujas línguas são usadas em maior escala, além das fronteiras nacionais. Eu me refiro ao inglês, em certo sentido ao russo, ao francês no passado, e agora o alemão, o espanhol. As potências não estão dispostas a abandonar a posição privilegiada de suas próprias línguas no mundo. Mas no entanto os encontros internacionais devem ocorrer em algumas línguas ao mesmo tempo, com a ajuda de intérpretes, porque é difícil que todos entendam uma língua apenas. Hoje já é impossível que o latim volte ao papel de língua falada. Neste caso seria necessário adaptá-lo à evolução dos nossos tempos. Por isso eu acho que deve ser escolhida uma língua que todos pudessem usar.
Se se trata do esperanto, ela é uma língua de mais fácil aprendizado e com uma gramática simples. Eu me surpreendi como é possível aprender tão rápido, e eu acho que ela deve ser apoiada, tanto mais por ser baseada significativamente sobre línguas européias; é impressionante sua semelhança ao italiano.
R.P. - Eminência, o senhor não teve dúvidas de que uma língua especialmente criada pudesse servir à comunicação internacional?
D.M. - Não, porque eu prestei atenção, eu vi o objetivo. Tanto mais porque em alguns países o Esperanto é relativamente bem conhecido e porque é possível comunicar-se com indivíduos e com grupos de pessoas.
R.P. - O senhor mencionou o período que passou em companhia de esperantistas em Roma e a celebração da liturgia em Esperanto. Mas os esperantistas tiveram que esperar um bom tempo a decisão das autoridades da Capital Apostólica que aprovou o texto do Missal e das Leituras de Celebração na língua internacional. Em que consistiu o auxílio concreto de Vossa Eminência para que estes textos pudessem atingir os sacerdotes e os católicos esperantistas mais rapidamente?
D.M. - É bom que eu relembre qual era a principal dificuldade perante as Congregações do Vaticano e especialmente a Congregação da Santa Liturgia para a aprovação do Esperanto como língua litúrgica. Essa dificuldade estava ligada ao argumento de que o Esperanto não era uma língua viva, usada por uma nação, que ela é usada por indivíduos espalhados pelos países. Por isso foi necessário apelar a uma esfera superior. Pediram-que eu tentasse uma entrevista com o Santo Padre e que eu apresentasse o caso. Com João Paulo II, quando ele era Arcebispo de Cracóvia, eu trabalhei na Comissão de Orientação Espiritual da Conferência dos Bispos da Polônia. E foi assim. Eu viajei a Roma, onde fui recebido pelo Santo Padre. Eu apresentei o caso e isso muito ajudou. Eu devo acrescentar que quem advogou pela permissão do Esperanto na liturgia foi o capelão do Santo Padre, o prelato Stanislaw Dziwisz e ele foi de grande auxílio durante a entrevista. O Santo Padre nada respondeu, mas ele se ocupou do assunto e em breve a permissão foi concedida. Como sinal de que eu fui o representante no caso, o meu nome está mencionado no decreto da Congregação como o daquele que legitimou a tradução apresentada para aprovação.
R.P. - Os católicos esperantistas têm desde 1903 sua organização, a IKUE, e existem filiais nacionais. Qual é o papel dos leigos esperantistas na Igreja, na Igreja que tanto mudou neste meio tempo?
D.M. - No meu entender, ele está ligado ao reconhecimento propriamente dito do Esperanto como língua internacional. Seria necessário inaugurar uma campanha neste sentido em centros internacionais como a União Européia, os Estados Unidos, durante congressos internacionais, também católicos, que esta língua seja reconhecida e colocada em debate. Ela se difundiria rapidamente. E o papel dos leigos é muito grande, porque eles poderão se entender por meio desta língua, perante muitos assuntos, em muitos encontros e congressos. O mundo se torna cada vez menor e interligado, por isso surgirá essa necessidade. Enquanto durar a dominação das línguas naturais, pelo menos em nossos países da Europa e da América, o Esperanto não terá um grande papel, mas funcionará numa esfera mais baixa. Seria necessário trabalhar para que o Esperanto fosse uma das línguas, antes de ser a única língua, das reuniões por exemplo do Conselho Mundial das Igrejas, se se trata da Igreja - a Igreja Católica Romana. Para isso deveriam intervir também as autoridade leigas, como a ONU. E essa idéia deveria ser divulgada. Eu acredito que para isso tem um grande papel a imprensa, se ela se ocupasse do problema lingüístico e começasse a "fazer barulho" em favor do Esperanto.
R.P. - Como devemos entender a mensagem dos estatutos da IKUE, que se encontra também no estatuto da Seção Polonesa, "para que todos sejam um"?
D.M. - O Esperanto traz idéias mundiais, universais. Em se tratando de católicos - cristãos em geral - o principal é a unidade da Igreja de Cristo. É então um trabalho em favor da unidade de todas as igrejas e da necessidade disso. Com a formação de um sentimento de unidade entre os homens e o soerguimento desta idéia. Hoje a Igreja Católica foi uma das primeiras a notar que não basta divulgar essas idéias entre os católicos, porque o mundo é agora tão pluralizado e miscigenado que é preciso levar essas idéias de unidade, compreensão e diálogo também a outras religiões do mundo. Nesse campo também os esperantistas podem e devem trabalhar, para que sejam construídas pontes de comunicação entre outros cristão e outras religiões. O diálogo também é possível para com pequenas alas, como os ateus.
Eu afirmo, porém, que se deve trabalhar primeiro no próprio meio. Evidentemente a unidade deve ser diversificada, porque a unidade na Igreja é diferente. A unidade do mundo inteiro também é diferente, pois ela se refere à convivência pacífica, concórdia e paz entre as nações.
R.P. - Enquanto nós falamos, em Wroclaw começa o Congresso Eucarístico Mundial, que com representantes de outras Igrejas tem um forte apelo ecumênico e a Polônia se prepara para a quinta visita do Papa. O que se espera destes eventos?
D.M. - A visita do Santo Padre tem um grande significado para a Polônia, mas tem uma ênfase maior dada pelo Congresso. O tema é "Eucaristia e Liberdade". Naturalmente se trata em primeira instância da liberdade integral do homem, que hoje é muitas vezes ameaçada não mais pelos sistemas totalitários como antigamente. Hoje ela é ameaçada por várias máfias e pela manipulação feita pelos meios de comunicação. Quanto a isso é importante formar, educar o homem que seja capaz de distinguir, na enxurrada atual de palavras e imagens, o verdadeiro do falso, o bem do mal, que seja livre em sua liberdade humana, que ele conserve a sua humanidade.
Quanto ao Santo Padre, ele encanta com sua personalidade. É um homem muito profundo, espiritual e intelectualmente, e sua primeira encíclica "Redentor do Homem" mostra que o caminho da Igreja deve buscar o homem. Daí sua abertura para o homem e a batalha pelos valores humanos, liberdade, paz e justiça no mundo atrai a todos, independente de religião, porque ele atrai a todos pelo espírito de humanidade. Eu não sei qual será a divisa comum às homilias do Santa Padre nesta visita, mas certamente ele trará muito o que pensar, e inspirará a melhoria de algumas coisas. Infelizmente há muito o que melhorar na Polônia.
R.P. - Ele vai abalar consciências?
D.M. - É difícil dizer, porque depende de muitas coisas. Hoje tudo toca o homem superficialmente, porque há muitas impressões, propostas, sugestões. Quando eu me recordo da minha juventude, eu descubro que nós - da sociedade pré-guerra - vivíamos com mais profundidade todos os eventos. Hoje tudo passa depressa e é depressa esquecido. Isso é ameaçador para o homem, pois sua identidade deve ligá-lo também ao passado, e ao mesmo tempo sua evolução deve atingir, penetrar no seio dos valores espirituais.
artigo anterior |
diversas perguntas |
próximo artigo |