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Esperanto: Uma Alternativa para o Choque das Civilizações (*)

Hilarina Aires
jornalista
BRASIL

Hoje em dia. muito se fala em globalização de tudo: da economia, da cultura, da ciência e da técnica. Para o que se produz hoje, da prosaica laranja a sofisticados softwares, pensa-se sempre em consumidores em todo o mundo. Isso é possível graças ao progresso da ciência e da tecnologia. que encurtaram as distâncias fisicas com trens-bala e aviões supersônicos e que criaram a telemática (telecomunicações informatizadas). Essa onda de mudanças sob o signo da velocidade que ora testemunhamos tem até nome: "terceira onda", a revoluçao técnico-científica a que o cientista norte-americano Alvin Toffler se refere, considerando "primeira onda" a revolução agrícola ocorrida no período neolítico, quando a humanidade aprendeu a plantar e a domesticar animais, e "segunda onda" tanto a primeira quanto a segunda revolução industrial, sucedidas entre os séculos XVIII e XIX.

O leitor deve estar perguntando agora o que isso tem a ver com o esperanto. Peço apenas um pouco de paciência para chegar lá.

Bem, essa revoIução técnico-científica, na verdade, encurtou enormemente as distâncias físicas entre os países e até civilizações (ocidental, islâmica, indígenas, nipônica, sino-confuciana, indiana, etc.). E o que à primeira vista poderia significar mais progresso nas relações humanas em larga escala, com o fim do isolamento físico dos diferentes grupos humanos entre si, demonstra o contrário: o grande desafio de fazer esses agrupamentos conviverem com a realidade atual, que os faz estar literalmente cara-a-cara com o outro (estrangeiro), seja através da televisão, que capta imagens via satélite, seja por meio de computadores e telefones que transmitem a imagem dos interlocutores simultaneamente, sem falar em tantos outros processos de interação por meios tecnológicos a cada dia mais desenvolvidos, a exemplo daqueles que permitiram Michael Jackson gravar vídeo-clipes em diferentes países do Terceiro Mundo e misturar a cultura do "hot-dog" com os saris indianos,os tambores do Olodum e os pagodes tailandeses, numa sopa cultural batizada de  "ethno-music", muito em moda nos Estados Unidos e na Europa, onde ironicamente mais existem conflitos étnicos.

Mas, como eu estava dizendo, o fim do isolamento físico entre povos diferentes gerou o novo desafio de fazer conviver pessoas de culturas tão díspares nessa "aldeia global" a que se reduziu o planeta. Samuel Huntington, no artigo "Civilizações ou o quê? Paradigmas do mundo pós-guerra fria", citado no livro Política Externa (Editora Paz e Terra), faz a seguinte assertiva: 

Um pouco mais adiante, Huntington aponta um terceiro fator, além de outros dois que não convém citar por falta de espaço:

É o que podemos observar, por exemplo, nos conflitos na ex-Iugoslávia, um país retalhado por grupos étnicos rivais, nas lutas separatistas entre tribos africanas, bascos na Espanha, irlandeses no Reino Unido, chechenos na Rússia, curdos no Afeganistão, entre outros que pipocam às centenas pelos cantões do mundo.

Mais uma vez, o que o esperanto tem a ver com tudo isso? - deve estar perguntando o leito. Bem, caro leitor, escrevi tudo isso para ilustrar e referendar as declarações do Manifesto de Praga. Trata-se de um documento apresentado no 81o. Congresso Mundial de Esperanto, realizado em julho passado, em Praga, do qual participaram 2972 pessoas de 66 países. Somente na ocasião do seu lançamento recolheram-se mais de 700 assinaturas, e está correndo pelo mundo, numa campanha de adesão maciça.

O documento, por si só, exprime um sentimento comum existente no seio do esperantismo internacional que reflete justamente essa tendência mundial claramente observável. Exprime também a disposição dessa comunidade transnacional de atuar mais efetivamente para, acredito eu, a minimização dos efeitos negativos desse "choque de civilizações", intensificando o uso da língua no seu cotidiano e realizando campanhas de convencimento de governos e de pessoas em particular com vistas à adoção do esperanto como língua auxiliar de comunicação, com a grande vantagem de ser essencialmente neutra.


* publicado originalmente no caderno Cultura do diário A UNIÃO (de João Pessoa, PB), de 24/11/96, e disponibilizado ao KCE pela gentil permissão da autora.

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